ESTUDAR, APRENDER, ENSINAR: ALGUMAS REFLEXÕES
Paulo Freire
O homem deve ser o sujeito de sua própria educação. Não pode ser o objeto dela!.
O que significa ser sujeito no processo educativo? E, ao contrário, o que significa ser objeto?
Como sujeito, o ser humano ‚ um agente empenhado na busca de si mesmo,
na busca de ser mais (não
confundir com ter mais!), que estuda movido pela curiosidade, pela
necessidade de achar respostas para as
inúmeras perguntas que ocupam sua mente, que aprende na medida
em que reflete sobre essas perguntas e
o mundo com a visão crítica de que tem consciência
das limitações do saber humano. É um ser criativo,
também porque não, às vezes, o que ele próprio
disse e/ou escreveu no passado.
Como objeto, o indivíduo é algo assim como uma esponja
que deve ser embebida com os ensinamentos
"certos", um "certo" passivo, no máximo, receptivo. Alguém
cujo protótipo seria uma espécie de máquina
perfeita. Não questiona, não critica, não cria:
repete e reproduz o que lhe foi "ensinado". É conformado, é
ajustado e, muitas vezes, definido como "equilibrado". No entanto,
embora talvez muitos poucos o percebam,
é um ser de altíssima periculosidade, já que,
na medida em que abdica da condição de sujeito de sua
educação, abdica igualmente daquilo que fundamentalmente
o caracteriza como humano, ou seja, da
possibilidade de fugir aos estereótipos e da rigidez de padrões
comportamentais pré-estabelecidos.
Quando os seres humanos são vistos como sujeitos em educação,
estudar, aprender e ensinar constituem
três aspectos de um mesmo processo em que se engajam professores
e alunos, educadores e educandos.
Certamente isto nada tem a ver com a prática autoritária
(infelizmente tão familiar a todos nós) em que o
educador é visto como o dono do saber que deve doar aos alunos
e estes como, por assim dizer, "donos da
ignorância", que poderão reduzí-la na medida em
que absorvem o que lhes dita o mestre... Quando o
educando é sujeito de sua educação, o educador
se apresenta como apenas um dos recursos de
aprendizagem com que pode contar aquele, à disposição
de quem colocará o seu saber relativo. Dentre
dessa perspectiva, o aluno aprenderá tanto mais as respostas
aos seus questionamentos, quanto mais for
além do saber relativo que lhe é transmitido.
Quando, porém, as pessoas são tomadas como objetos, a
educação tornando-se uma prática domesticadora
e coercitiva, a ênfase deixa de ser sobre o que o indivíduo
é para repousar sobre aquilo que ele deve
tornar-se. É suposto um modelo ao qual ele deve ser ajustado
para melhor desempenhar sua função social,
sendo esta, evidentemente, definida por outrem. Há uma preocupação
muito grande com o que ele faz, e o
que ele sente e pensa só é importante na medida em que
se traduz em ações. O educador é suposto um
"domesticador" e investido de muito poder em relação
aos educandos, que devem receber passivamente
aquilo que lhes é dado. Nesse contexto, todo aquele que tenta
assumir uma postura de sujeito, que se
diferencia da média em função de sua capacidade
de crítica, de sua criatividade, enfim, todo aquele que ousa
ser diferente, é visto como um "desajustado" ou como um "desadaptado"
e a ele se dirigem as atenções dos
que circundam na tentativa - muitas vezes bem intencionada - de "reconduzí-lo
à normalidade.
Infelizmente entre nós vigoram com muita intensidade a educação
autoritária, a visão do educando como
objeto e as práticas condicionadoras, contrapondo-se violentamente
às iniciativas daqueles educadores e
educandos que buscam ser mais, realizar-se, ser agentes no processo
social. É surpreendente e muito
animador, no entanto, que ainda haja pessoas que, apesar de submetidas
a anos e anos desse processo de
"domesticacão", continuem curiosas e criativas, que analisem,
critiquem, proponham e ainda possam prestar
sua contribuição às tentativas de solução
dos problemas da existência humana.