PROGRAMA DE FORMAÇÃO DE COORDENADORES DE DINÂMICA DE GRUPO / PROGRAMA DE FORMACION DE COORDINADORES DE DINAMICA DE GRUPO
CONSULTORIA DE PROCEDlMENTO - SEU PAPEL NO DESENVOLVlMENTO ORGANIZACIONAL
EDGAR H. SCHEIN
Massachusetts Institute of Technology.
Tradução por Prof. ANTÔNIO DUILIO
SANDAZ
Da Faculdade de Economia e Administração da Universidade
de São Paulo
EDlTORA EDGARD BLUCHER LTDA.
Final
TREINANDO OU ACONSELHANDO
O ato de fornecer feedback tanto para indivíduos
quanto para grupos quase que invariavelmente conduz a
sessões de treinamento ou de aconselhamento.
O administrador pode ficar sabendo que, de alguma forma,
está deixando de ouvir certos membros
do grupo; que ele não sabe reconhecer um bom desempenho; ou que
ele é demasiadamente inacessível
quando um subordinado necessita de ajuda. Assim, sua pergunta seguinte
vai ser "Como posso modificar meu comportamento
a fim de obter melhores resultados?" Da mesma forma,
um grupo pode vir a saber que seus membros consideram
as reuniões como "chatas" ou infrutíferas;
inevitavelmente os membros vão perguntar-se:
"Como podemos tornar nossas reuniões mais interessantes e
produtivas?".
O consultor deve ter em mente um cuidado duplo antes de responder as questões acima:
Não responder
enquanto não estiver certo de que o grupo (ou o indivíduo)
realmente compreendeu o
feedback e foi capaz
de relacioná-lo com um comportamento concreto;
Não responder
enquanto não estiver certo de que o membro do grupo (ou administrador)
não deu início
a um processo ativo
de tentativa de solucionar o problema por si próprio.
Se o consultor não está seguro do
ponto 1 deve continuar fazendo perguntas tais como: "O que significa esse
comentário para você? Como você
o encara?", "Pode você pensar em algo que você faça
e que poderia dar
às pessoas aquela impressão?".
Ou "O que você acha que a pessoa que fez esse comentário queria
lhe
comunicar?"
Se o consultor não está seguro do
ponto 2, eIe pode fazer as perguntas: "Você vê alguma coisa
no seu
comportamento que você pode mudar?", "O
que você pode modificar para criar uma reação diferente?"
ou
"Você quer mesmo mudar seu comportamento?".
Se o consultor obtiver respostas como "Estou pagando
ao senhor para o senhor me aconselhar", deve rever o
tipo de relacionamento e o desejo daquele que
recebe o feedback de trabalhar na área do problema. Se o
feedback foi sinceramente procurado e entendido,
é muito provável que o receptor tenha idéias e as
vá
comunicar ao consultor. O papel do consultor
transforma-se, então no de ajuntar alternativas às já
mencionadas pelo cliente, e ajudar o cliente
a analisar os custos e os benefícios das diversas alternativas que
foram mencionadas.
Não desejo, neste pequeno volume, aprofundar-me
na teoria e na prática de como aconselhar; mas desejo
enfatizar a congruência básica entre
as teorias de como aconselhar e a teoria da consultoria de
procedimentos que tento apresentar aqui. Em ambos
os casos é essencial ajudar o cliente a melhorar sua
habilidade em observar e analisar as informações
sobre ele mesmo, ajudá-lo a aceitar e a retirar elementos
úteis do feedback, e auxiliá-lo
a tornar-se um participante ativo junto com o conselheiro/consultor na
identificação e resolução
de seus próprios problemas.
Em todas as companhias em que trabalhei, surgiram
múltiplas oportunidades para treinar e aconselhar
indivíduos ou grupos. Parece não
haver nenhuma regra particular para determinar a melhor ocasião
em que
tais sessões devem ser levadas a efeito.
Pelo contrário, tive de estar preparado a sentar-me com o pessoal
na hora em que eles estavam prontos para examinar
alguns de seus próprios comportamentos e considerar
alternativas. A maior diferença para mim
entre ser apenas um consultor e ser um consultor de procedimentos
tem sido o fato de que minha coleta de dados
tem-me fornecido informações e perspectivas que um consultor
não possui. Geralmente, observo meu cliente
em ação, e ouço o que outras pessoas falam a seu respeito.
Esse conhecimento adicional, quando inserido
nas sessões de aconselhamento, enriquece a escolha de
alternativas que podem ser levadas em consideração,
e possibilita uma abertura de muitas áreas de
problemas a serem discutidos de forma mais concreta.
Por exemplo, passei alguma horas com um administrador
que via a si próprio como uma força muito
progressista dentro de uma organização
um tanto quanto conservadora. Minhas observações, além
do que os
outros diziam sobre ele, apontaram que ele era
um pouco conservador na sua conduta. Suas idéias eram
progressistas, mas sua conduta real tendia a
desacreditá-las perante os outros. Nossas sessões individuais
eram mais produtivas quando podíamos comparar
a imagem que ele fazia de si mesmo com aquilo que os
outros diziam e com o que eu observei. Quando
o administrador pode ver seu conservadorismo em ação,
chegou a conclusão que ele próprio
destruía algumas de suas idéias progressistas. Essa conclusão
o levou a
algumas mudanças marcantes no seu comportamento
e a um aumento de sua eficiência.
Há uma grande semelhança entre as
intervenções que atraem a atenção do grupo
para certos tipos de
problemas de procedimentos, e entre o que eu
decidi chamar de intervenções do tipo aconselhar (ou treinar).
Uma das oportunidades mais comuns de aconselhar
ou treinar, é intervir quando um acontecimento particular
tenha ocorrido, e peculiar a algum problema que
o grupo está tentando resolver. Nessas ocasiões, o consultor
pode ser mais eficiente se apontar o que acabou
de ocorrer e se convidar o grupo a examinar as
consequências. . Está, assim, fornecendo
feedback num momento oportuno, a fim de ajudar o grupo a se
tornar mais eficiente.
Vejamos alguns exemplos. Nas reuniões do
comitê de executivos de uma companhia, notei que o grupo
parecia ter pouca confiança num de seus
membros, o gerente de marketing. Essa falta de confiança era
patenteada na forma como os outros o ignoravam,
discutiam com ele e faziam sua "caveira" fora das
reuniões. A cada vez que esse homem tentava
explicar alguma de suas ações, decisões ou planos
nas
reuniões, um dos membros mais agressivos
o interrompia, respondia em seu lugar ou fazia considerações
sobre o que ele achava que o gerente de marketing
tinha dito. O grupo parecia querer que esse indivíduo
fosse fraco e passivo, e confirmava seu desejo
impedindo-o de ser algo diferente. Decidi intervir no ponto em
que esse comportamento fosse mais visível
(i.e., logo depois de o gerente de marketing ter sido interrompido
ou ignorado num assunto) e dizer ao grupo que
observei o fato repetidamente. Quando fiz isto, o grupo
mostrou algum interesse em saber se o gerente
de marketing realmente se sentia posto de lado. Ele exprimiu
uns sentimentos um tanto quanto fortes, confirmando
minhas observações. Uma vez que esses sentimentos
ficaram conhecidos dos outros membros, eles começaram
a ouvi-lo com mais atenção. Quando começaram a
prestar mais atenção nele, descobriram
que ele tinha contribuições valiosas a fazer, uma porção
de coisas
com que contribuir e não era nada "fraco"
e "avoado" como eles achavam. Então, os membros do grupo
passaram a confiar mais em suas decisões
e se sentiram mais dispostos e à vontade para delegar-lhe
autoridade.
Num outro grupo, a dificuldade referia-se à
maneira pela qual o chefe do grupo agia com relação aos
membros. O chefe queria que os membros fossem
fortes, autoconfiantes, e que tomassem decisões com
segurança. Ele fazia esta afirmação
explicitamente e seu comportamento deixava o fato implícito. Observei
em repetidas ocasiões
que se algum membro do grupo demonstrasse algum
tipo de fraqueza (não sabendo o que queria,
apresentando planos não muito claros,
sendo incapaz de responder a urna pergunta crítica de outro membro),
o chefe do grupo ficava muito irritado e chamava-lhe
a atenção minutos a fio. Quanto mais o cabeça do grupo
fazia pressão, mais silenciosa, embaraçada
e insegura tornava-se a pessoa em questão. Ao falar com essas
pessoas mais tarde, vim a saber que o único
sentimento que elas atribuíam ao chefe do grupo era fúria
cega,
e isto as tornava tão defensivas que elas
nem podiam entender o que ele realmente queria delas. Nesse caso,
tentei interromper o procedimento a meio caminho
e coletar os sentimentos tanto da pessoa repreendida,
quanto dos demais membros do grupo. Além
disso forneci feedback direto ao chefe do grupo, tanto na
reunião, quanto em particular, com relação
ao impacto que seu comportamento estava provocando em mim.
Isto o levou a uma análise do comportamento
e a um desvio gradual na forma de comunicação: de raiva para
desapontamento. O que possibilitou ao grupo familiarizar-se
com o problema que o estava atormentando.
SUGESTÕES SOBRE A ESTRUTURA
Como indiquei no começo do capítulo,
esse tipo de intervenção é muito raro, principalmente
por violar alguns
dos pressupostos básicos do modelo de
consultoria de procedimentos. O consultor raramente se encontra
numa posição de sugerir como dividir
o trabalho, ou como alterar os padrões de comunicação,
ou como
organizar os comitês. O máximo que
ele pode fazer é ajudar o administrador a avaliar as consequências
de
diferentes alternativas, ou sugerir alternativas
que ainda não foram levadas em consideração.
Por exemplo, numa companhia que recentemente passou
de uma estrutura de organizacional funcional para
uma estrutura baseada em linhas de produtos,
notei que a comunicação entre as áreas funcionais
(por ex., de
marketing e engenharia) havia sido reduzida de
forma violenta. Minha intervenção foi delineada de forma
a
atrair a atenção para o fato de
que qualquer tipo de organização possui pontos fortes e fracos.
Dai, a
necessidade de o administrador fazer um esforço
para criar estruturas informais, a fim de compensar a
fraqueza provocada pela estrutura formal. Nesse
caso, a companhia finalmente decidiu adotar a estrutura de
comitês que reuniu regularmente os especialistas
funcionais e assim reduziu o gap de comunicação que havia
resultado da reorganização.
O consultor deve deixar bem claro que ele não
está propondo nenhuma solução particular como sendo
a
melhor. Não importando quão frustrador
possa ser para o cliente, o consultor de procedimento deve trabalhar
para criar uma situação em que
é ampliada a habilidade do cliente de gerar suas próprias
soluções. O
consultor deseja melhorar a habilidade de resolver
problemas e não resolver um problema especifico. ; '
Mas em minha experiência houve apenas um
tipo de exceção à "regra" , o mencionado acima. Se
o cliente
deseja elaborar algumas reuniões especificamente
para trabalhar com problemas organizacionais ou
interpessoais, ou deseja planejar um método
de coleta de dados, então o consultor realmente possui alguma
experiência relevante que ele deve apresentar.
Por experiência ele conhece, melhor que o cliente, os prós
e
os contras de utilizar métodos de entrevistas
ou questionários; ele sabe melhor que perguntas fazer, como
organizar os dados e reuniões de feedback;
ele conhece melhor a sequência correta dos acontecimentos que
conduzem a uma boa discussão de procedimentos
interpessoais num comitê. Em tais assuntos, portanto, sou
bastante direto e positivo ao sugerir procedimentos,
quem deve ser envolvido neles, o que se deve dizer a
quem e como lidar com o projeto todo.
Por exemplo, lembremo-nos do fato de o presidente
da Apex ter decidido, numa das reuniões de dia inteiro,
fornecer feedback a todos os membros. Ele pediu-me
que sugerisse um procedimento para isso. Nesse
caso, não relutei nem um pouco em sugerir
com toda força e lógica de que era capaz, um procedimento
particular que eu julgava que ia funcionar bem.
Da mesma forma, quando se propôs a entrevistar todos os
membros de um departamento, sugeri exatamente
quais deveriam ser os procedimentos; expliquei que todos
os membros deveriam ser informados pelo chefe
do departamento de que uma reunião de grupo para o
fornecimento de feedback iria ser realizada,
e assim por diante. Não hesito, nem um pouco, em recusar a
elaboração de um estudo baseado
em questionário se o considerar inapropriado, ou a programação
de uma
reunião sobre procedimentos interpessoais
se achar que o grupo não está pronto para isso.
Concluindo, o consultor de procedimentos não
deve se recusar a partilhar sua experiência relacionada ao
processo de aprendizagem em si; porém,
ele deve tomar muito cuidado para não se deixar confundir entre
um
perito em como ajudar a organização
a aprender e um perito nos problemas reais de administração,
os quais
a organização está tentando
resolver. A mesma lógica deve ser aplicada na avaliação
de indivíduos: em
circunstância alguma avalio a habilidade
de um indivíduo em participar de um estudo de relacionamento de
seu grupo, ou de uma reunião de fornecimento
de feedback. Se eu sinto que sua presença pode destruir
outros objetivos que a organização
está tentando alcançar, procuro uma solução
para contornar esse
indivíduo. Frequentemente, esses são
julgamentos difíceis de se fazer, mas o consultor de procedimentos
não
pode evitá-los se ele define como seu
objetivo básico a saúde completa da organização.
Todavia, ele deve
sempre procurar ser justo tanto com o indivíduo
como com a organização. Se nenhuma atitude pode ser
tomada sem q e um deles sofra, então o
projeto deve ser adiado.
Posso fornecer dois outros exemplos de intervenções
na estrutura. Na companhia G, a qual não me referi
anteriormente, trabalhei por algum tempo com
um membro do grupo de desenvolvimento administrativo da
empresa. Eu havia anteriormente atuado como conselheiro
e elemento de apoio em vários programas
desenvolvidos pelo grupo. A empresa não
possuía grandes aspirações com relação
ao desenvolvimento
organizacional, se bem que houvesse um interesse
crescente nesse tipo de atividade. Certa vez, no ano
passado, o gerente a que me referi acima foi
solicitado a considerar um programa de treinamento para todos
os postos-chave em marketing, nas várias
divisões da companhia. Fui chamado para ajudar na formulação
desse programa e para funcionar como um dos membros
do staff. Minhas responsabilidades incluíam o
recrutamento de outro elemento para fazer parte
do staff, ajudar os membros da administração a formular
seus objetivos e necessidades no programa, e
depois ajudar a planejar o programa efetivo. Isto requeria uma
mudança de papel: de consultor de procedimentos
para técnico em planejamento e execução de programas
de treinamento administrativo. Em meu relacionamento
com a Companha G, tive de mudar de papel várias
vezes. A mudança de papéis funcionava
porque eu já havia trabalhado vários anos com esse cliente.
Além
disso, o meu contato-cliente era, ele próprio,
muito versátil e adaptava-se facilmente a diferentes papéis
e
formas de relacionamento.
O principal contato também funciona como
um ponto de comunicação com outros grupos na organização
onde a consultoria de procedimentos se faz necessária
de tempos em tempos. Por exemplo, trabalhei com
um grupo de vendas de uma das divisões
da companhia num projeto de entrevista-feed-back, para determinar
como os membros da equipe de vendas de uma região
encaravam seu trabalho, e para ajudar a
administração a rever todo o estilo
de operações na função de vendas.
O segundo exemplo vem da Companhia B. Meu principal
trabalho nessa organização foi encontrar-me com o
grupo da alta administração e aconselhar
individualmente os membros do grupo. No ano passado, o diretor
de pessoal veio pedir-me que me envolvesse na
pesquisa anual sobre a mão-de-obra disponível, e para
ajudar a empresa a formular uma abordagem global
mais coerente com o desenvolvimento administrativo. A
fim de executar esta tarefa, pedi para fazer
parte do comitê de estudos sobre a mão-de-obra. Durante as
reuniões, tentei avaliar as necessidades
da organização e o tipo de programa que atenderia tais
necessidades. Fazendo isso, eu estava começando
a me transformar num técnico e a abandonar o papel de
C-P.
Pareceu-me, ao ouvir as discussões, que
no tempo que o grupo havia determinado, ele não conseguiria
formular um conceito claro de um programa; assim,
intervim "estruturalmente" e sugeri um programa de
autodesenvolvimento com componentes múltiplos,
o uso sistemático de treinamento interno e externo, uma
revisão de políticas de recrutamento
e a utilização do pessoal dentro da empresa. Todos os pontos
eram
extrapolações daquilo que os membros
do comitê queriam fazer, mas eu reuni as idéias numa estrutura
total e
esforcei-me um pouco para "vender" isto ao grupo.
O grupo adotou o programa e apresentou-o sob a forma
de proposta a outros membros da administração
e à diretoria.
Fazendo um retrospecto mental dessas intervenções,
fiquei a cogitar se a natureza estrutural dessa
intervenção fora realmente garantida,
e se meus objetivos foram de fato alcançados ou não. Há
alguma
evidência de que o programa foi, em princípio,
aceito e que todos concordaram com ele em tese, porém
fez-se muito pouco para implementá-lo.
Pelo menos uma possibilidade para o fato de o programa não ter sido
mais sistematicamente implementado é que,
ao intervir, fui multo além do grupo. De alguma maneira, o grupo
perdeu
o direito de propriedade sobre o programa e, por
isso, não sentiu um verdadeiro compromisso com sua
implantação. Se essa hipótese
estiver correta, ilustra muito bem o limite entre consultoria de procedimentos
e
consultoria técnica, e os perigos inerentes
às intervenções estruturais.
RESUMO
Tentei chamar a atenção para as
variedades de intervenções de que se utiliza o consultor
de procedimentos.
Espero que esteja claro para o leitor que a essência
do modelo de consultoria de procedimentos é a de
rediagnosticar continuamente e agir de acordo
com o diagnóstico. Portanto, não é possível
escrever
"receitas" de intervenções especificas
ou determinar sequências particulares que devem ser usadas em
qualquer projeto dado. Uma seqüência
que pode dar certo na Companha A pode ser totalmente inaceitável
na
companhia B. Pelo contrario, o consultor deve
estar preparado para intervir de várias formas, à medida
que
surgem as oportunidades e à medida que
o seu julgamento diz que certas ações são apropriadas.
Ele deve
ser suficientemente flexível para tirar
proveito das oportunidades, baseado em seus próprios julgamentos.
Foram comentados os seguintes es tipos de intervenção :
determinação
da agenda através de perguntas, de períodos de análise
de procedimentos interpessoais
e grupais, e através
de informações teóricas sobre vários problemas
de procedimentos;
diversos tipos de sessões
para fornecimento de feedback para indivíduos ou grupos, baseados
nos
dados observados, ou
nos obtidos através de entrevistas;
treinar ou aconselhar,
o que ocorre quer em sessões especificamente dedicadas a esse fim,
quer como
parte de uma interação
contínua num grupo;
sugestões estruturais
pertinentes a reuniões orientadas para procedimentos ou a outras
partes do
projeto de consultoria.
13. AVALIAÇÃO DOS RESULTADOS E DESLIGAMENTO
Até agora examinamos, com alguns detalhes,
o pensamento e as atividades de um consultor de
procedimentos. Não nos concentramos no
quadro geral: que tipos de consequências ou resultados procura o
consultor de procedimentos dentro de um certo
período de tempo, como ele avalia essas consequências e
como ele decide, num determinado ponto, reduzir
seu envolvimento com o sistema do cliente?
Essas perguntas não são fáceis
de responder porque os objetivos de C-P não podem ser fixados em
termos
de simples medida. O objetivo final de qualquer
esforço de desenvolvimento organizacional é evidentemente
um melhor desempenho organizacional. Aqueles
esforços de desenvolvimento organizacional que envolvem
uma C-P, procuram atingir a eficiência
através da mudança de alguns dos valores da organização
e através
do aumento da habilidade de relacionamento interpessoal
dos administradores. O desempenho está, por sua
vez, relacionado com essas mudanças de
valores e aperfeiçoamento de habilidades. Depois de algum tempo
o consultor de procedimentos procura evidências
de que certos valores estão mudando e de que certas
habilidades estão melhorando. Vejamos
o que são valores e habilidades.
VALORES E HABILIDADES A MODIFICAR ATRAVÉS DA CONSULTORIA DE PROCEDIMENTOS
Valores
O único valor mais importante a ser mudado
em qualquer esforço de desenvolvimento organizacional que
envolve C-P, diz respeito à relativa atenção
dispensada aos problemas técnicos versus problemas humanos.
A maioria dos dirigentes começa considerando
que os interesses mais importantes da administração são,
em primeiro lugar, um desempenho técnico
eficiente, e em segundo (ou quando o tempo permite), as relações
humanas. O problema para o consultor de procedimentos
é mudar esse conceito - fazer com que o
administrador sinta que as relações
humanas e a administração das ocorrências interpessoais
e grupais são,
pelo menos, tão importantes quanto o desempenho
de uma tarefa. A lógica que reside nesse valor é que,
para o administrador, a execução
da sua tarefa depende de outras pessoas; dessa forma, as relações
interpessoais eficientes se tornam os meios mais
importantes para o desempenho efetivo de uma tarefa. No
fim, as organizações nada mais
são do que redes de relações humanas. Se essas redes
não funcionam
eficientemente, não há nada com
que executar as tarefas.
Um segundo valor que deve ser modificado em qualquer
esforço de DO e que envolve C-P, refere-se à pouca
atenção dada ao conteúdo
do trabalho, e à estrutura da organização versus o
processo através do qual é
realizado o trabalho. Os dirigentes tendem a
dar mais ênfase ao conteúdo das decisões, interações
e
comunicações. Tendem a desvalorizar
a importância da "personalidade", dos "sentimentos" e de "como são
feitas as coisas", ou tentam esquivar-se de tais
problemas de procedimentos através de um perpétuo
replanejamento da estrutura da organização.
O consultor enfrenta o problema de mostrar aos administradores
que os procedimentos da organização
seguem padrões que podem ser estudados e compreendidos, e que
têm consequências importantes no
desempenho organizacional. Mais importante ainda, os procedimentos
podem ser racionalmente mudados e adaptados para
aumentar a eficiência do desempenho. Por isso,
deve-se tentar melhorar a organização
considerando, em conjunto, a estrutura e os procedimentos da
organização.
Um terceiro valor refere-se à atenção
relativamente grande dada à produção a curto prazo
versus eficiência a
longo prazo. Grande parte dos dirigentes acha
que todas as horas do dia deveriam ser ocupadas com
atividades que têm um rendimento imediato.
O consultor de procedimentos sabe por experiência própria
que
o diagnóstico dos procedimentos interpessoais,
muitas vezes envolve períodos de análise lenta e calma que
pode, de início, parecer um terrível
desperdício de tempo. Ele deve mudar o sistema de valores do dirigente,
de forma a ele se tornar tolerante nesses períodos,
compreendendo que o tempo investido em construir
relações interpessoais eficientes
conduz em última análise a um desempenho técnico muito
mais rápido e
mais eficiente.
Um quarto valor que o consultor de procedimentos
deve inculcar é a aceitação da necessidade de um
diagnóstico continuo, como alternativa
à insistência que se faz nas generalizações
e princípios através dos
quais operar. Parto do pressuposto de que o ritmo
de mudança no ambiente (e portanto dentro das
organizações) é progressivo
o que por sua vez vai exigir um aumento na habilidade da organização
de
diagnosticar-se e de diagnosticar o ambiente.
Um princípio ser válido para os próximos seis meses,
podendo
não mais ser útil dentro de um
ano. O administrador deve aceitar o diagnóstico contínuo
dos procedimentos
como um estilo de vida, se quiser evitar obsolescência
e fracasso organizacional. Seria ideal que o
administrador não aceitasse simplesmente
este valor resmungando, mas que descobrisse que diagnóstico
continuo pode ser divertido e pode levar a um
melhor desempenho diário das tarefas. Não defendo o que
tantos dirigentes parecem temer - que se eles
diagnosticarem demasiadamente, serão incapazes de decidir
quando uma ocasião o exigir. Estou defendendo
a idéia de que sejam tomadas decisões, dentro dos limites
de tempo impostos pelo trabalho, mas que elas
sejam tomadas em termos de diagnóstico, mesmo que de
curta duração, ao invés
de estabelecer uma política ou principio geral que podem não
ter mais validade
Resumindo, o consultor de procedimentos tenta
modificar as atitudes e valores do dirigente no sentido de
fazer com que ele sinta uma maior preocupação
com os problemas humanos, com os assuntos relativos a
procedimentos, com a eficiência a longo
prazo, e com o próprio processo de diagnóstico como forma
de
alcançar maior adaptabilidade entre os
membros da organização.
Consequentemente, a melhor maneira de avaliar
os resultados de um trabalho de C-P é medir nos
administradores a profundidade das raízes
desses valores. Tal avaliação não pode ser feita formalmente
ou
através de algum tipo de medida. Deve
ser feita pelo consultor através da observação das
atividades dos
administradores na organização,
ou então pelos próprios administradores.
Habilidades
Como venho repetindo constantemente através
de todo o volume a habilidade mais importante que deve ser
revelada ao cliente é a habilidade de
diagnosticar e trabalhar em seus próprios problemas nas áreas
interpessoais, organizacionais e de grupo. Inicialmente,
o consultor de procedimentos possui mais
conhecimentos e habilidades do que o cliente.
A medida que o trabalho de C-P evolui, ele deve estar apto a
observar um aumento nos conhecimentos e habilidades
dos diversos administradores que foram envolvidos.
Um dos melhores indícios do aumento dessas
habilidades é o desejo de vários grupos ou equipes de se
dedicar à análise de procedimentos
ou à revisão da agenda por iniciativa própria. Até
que ponto eles querem
dar uma oportunidade a um observador, e quão
habilidosos são eles em coletar as ocorrências importantes,
em partilhar sentimentos, em rever as ações
do grupo?
Deve ficar claro que uma vontade de se empenhar
em atividades que, no início, foram do consultor, reflete
uma mudança de valores. Mesmo que um administrador
qualquer estivesse apto para se empenhar numa
autodiagnose, ele poderia resistir a uma atividade
como essa se nenhum dos valores acima citados tivesse
mudado. Por outro lado, uma vontade de mudar
não é suficiente se a habilidade para tanto não se
desenvolveu.
A avaliação da habilidade do cliente
para efetuar um diagnóstico e para trabalhar em seus próprios
problemas, deve ser feita através de observações
do consultor e/ou pelo próprio cliente. É importante que
os
administradores se sintam confiantes para resolver
seus próprios problemas, e os resolvam eficientemente.
Mesmo que o consultor duvide que o grau de habilidade
alcançado seja suficiente, ele deve estar preparado
para se retirar se os próprios membros
do cliente sentem que estão preparados para continuar sem sua
ajuda.
No caso A, uma mudança considerável
de valores e um aumento habilidade ocorreram durante o primeiro
ano. Durante esse período gastei grande
parte do meu tempo em duas atividades importantes:
1) participei de diversas reuniões do grupo
da alta administração; e 2) conduzi estudos de entrevista
e
feedback de vários grupos importantes,
segundo os critérios que os dirigentes tinham para essas reuniões.
Além disso, houve períodos em que
dei conselhos individualmente, o que, em geral, resultava dos dados
revelados nas entrevistas. Já dei exemplos
dos tipos de atividades especificas que ocorreram nas reuniões
de grupo, entrevistas e sessões de feedback.
Ficou claro que, com o aumento da experiência o grupo foi
aprendendo a trabalhar com seus próprios
procedimentos internos (habilidade), começou a prestar mais
atenção neles e a conceder mais
tempo para análise dos sentimentos e dos acontecimentos interpessoais
(mudança de valores), e foi ficando capaz
de lidar com sua própria agenda e fazer seu diagnóstico sem
a
minha presença (habilidade). O grupo fez
essa descoberta primeiramente por ter de conduzir algumas das
reuniões de dia inteiro na minha ausência.
Enquanto que anteriormente essas reuniões eram dedicadas
totalmente ao aspecto técnico do trabalho,
o grupo concluiu posteriormente, que mesmo na minha ausência
ele podia discutir, com êxito os procedimentos
interpessoais. Os próprios membros descreveram essa
mudança como uma mudança de "ambiente".
O grupo se sentiu mais aberto e eficiente; os membros sentiam
que podiam confiar mais uns nos outros; as informações
surgiam mais livremente; perdia-se menos tempo
com comunicação oblíquas
ou com politicagem.
Durante o segundo ano, meu envolvimento reduziu-se
consideravelmente, embora eu ainda trabalhasse em
alguns projetos :específicos. A companhia
designou um comitê para criar um programa de desenvolvimento
administrativo. Fui solicitado para participar
desse comitê e ajudar no desenvolvimento do programa. Após
uma série de reuniões, ficou claro
para mim que o grupo necessitava de um programa cujo conteúdo não
fôsse rigorosamente determinado. Os problemas
dos diversos administradores eram suficientemente
diferentes para requerer uma única fórmula
de discussão para toda uma gama de problemas. Um dos reflexos
da mudança de valores que se deu entre
os administradores foi o fato de reconhecerem que deviam ser os
principais participantes em qualquer programa
que eles criassem. Se um programa não fosse bastante
excitante ou vantajoso para justificar, o tempo
do comitê ele dificilmente podia ser imposto ao resto da
organização.
Desenvolvemos um modelo que requeria uma série
de reuniões de grupos pequenos, em cada uma das
quais o grupo determinaria sua própria
agenda. De três em três reuniões, mais ou menos, um
grupo
administrativo maior seria convocado para uma
conferência e para um período de discussão sobre algum
tópico altamente relevante. Uma vez que
o primeiro grupo (o comitê e outros no nível do vice-presidente)
completasse seis a oito reuniões cada
membro do grupo original presidiria um grupo do nível organizacional
imediatamente inferior. Os dez ou mais grupos,
assim formados, iriam então reunir-se umas seis ou oito
vezes para discutir itens da agenda desenvolvidos
por eles mesmos. Nesse meio tempo a série de
conferências continuaria. Após cada
série de reuniões feitas num determinado nível organizacional,
o modelo
seria novamente analisado e modificado, ou continuado,
no nível imediatamente inferior com os membros
anteriores novamente funcionando como presidentes
de grupo.
Meu papel nessa empreitada toda foi, primeiro
o de ajudar o grupo a elaborar a idéia; segundo, reunir-me
com o grupo original procurando ajudá-lo
a se tornar mais produtivo; terceiro servir como um recurso para os
tópicos a abordar e exposições
a serem feitas na série de conferências, e quarto, aparecer
como
conferencista ocasional na série de conferências
ou como fonte de informações numa reunião de pequenos
grupos. À medida que esse processo foi
tomando forma, meu envolvimento foi gradualmente diminuindo,
apesar de eu ainda encontrar-me com o Comitê
original para rever o conceito global.
Em meses recentes, reuni-me, vez por outra, com
os membros do grupo original e com o grupo todo reunido.
Minha função durante esses encontros
foi de apoio, de contribuir com pontos de vista que podiam não estar
presentes entre os membros e ajudar o grupo a
avaliar seu próprio grau de funcionamento. Fui capaz de
prover o grupo com algumas perspectivas de seu
próprio crescimento como grupo porque pude mais
facilmente constatar mudanças de valores
e de habilidades. Foi também possível para o grupo solicitar
minha
ajuda em problemas interpessoais específicos.
Uma medida do amadurecimento do grupo foi sua habilidade
em decidir quando e como utilizar-se da minha
ajuda e tomar essas decisões de maneira válida, segundo
meu ponto de vista.
Na companhia B, minha participação
foi semelhante, porém por uma série de razões as mudanças
na
organização ocorreram muito mais
devagar. O grupo da alta administração aceitou intelectualmente
muitos
dos valores mas não se comprometeu a tentar
fazê-los funcionar. Alguns membros do grupo trabalharam
muito mais nesse assunto que outros. Quanto ao
desenvolvimento de habilidade, o grupo experimentou uma
série de técnicas tais como fazer
um dos membros do grupo observá-lo e depois relatar o que observou.
Essas atividades produziram um notável
(ainda que não grande) impacto. Uma parte do problema nessa
companha foi que eles tinham de lutar contra
um grande número de tradições que, em diversos graus,
não são
congruentes com o tipo de valores que eu defendo.
Eles enfrentaram também uma série de crises que
exigiam ação imediata, e que desgastavam
os esforços para concentração num diagnóstico
crescente e nas
habilidades interpessoais.
Até bem pouco tempo continuei me encontrando
tanto com indivíduos quanto com o grupo todo. Minhas
atividades envolviam aconselhamento dos membros
e a manutenção de uma pressão leve mas firme no
sentido de que eles se tornassem mais abertos,
confiantes e, portanto, eficientes. Recentemente o grupo
decidiu por iniciativa própria, ter uma
reunião de dois dias, na qual alguns sentimentos pessoais bastante
fortes foram partilhados entre os membros do
grupo. Apesar de a experiência ter sido traumática para um
ou
dois membros a maioria teve a sensação
de que a reunião foi construtiva, inclusive já estavam pensando
em
algo semelhante a ser realizado numa outra ocasião.
Nesse meio tempo, meu papel seria ajudá-los a
entender a experiência emocional pela qual
passaram e mostrar-lhes como fazê-la tornar-se uma experiência
construtiva.
Na companhia D, achei que o grupo desde o inicio
demonstrou uma alta aceitação dos valores de
desenvolvimento organizacional e grande habilidade.
Depois de cerca de uma dúzia de reuniões o grupo e eu
revimos o projeto e decidimos que, para o momento,
nenhuma medida se fazia necessária. A medida que os
problemas fossem surgindo, o grupo se comunicaria
comigo. Alguns meses mais tarde o grupo se expandiu,
porque toda a divisão da qual ele fazia
parte foi ampliada. Com a expansão surgiram alguns problemas
potencialmente novos. Devido à sua habilidade
já considerável em diagnosticar-se, o grupo procurou-me para
solicitar uma reunião mais longa, na qual
alguns dos novos problemas foram tratados em profundidade. .
A consultoria de procedimentos é uma atividade
que está surgindo, sendo portanto difícil estabelecer Imites
simples para ela. Da mesma forma, é difícil
fazer avaliações globais. É possível observar
as mudanças
gradativas que ocorrem na cultura da organização
do cliente; é possível observar os resultados de projetos
específicos, como um ciclo entrevista
e feedback, e é possível avaliar o impacto imediato de uma
intervenção
dentro de um grupo. Mas não é possível
estabelecer medidas indicadoras específicas embora isso fosse
desejável. No final, as conseqüências
de um período de consultoria de procedimentos devem ser julgadas
em
conjunto pelos membros do sistema do cliente
e pelo consultor. Ambos precisam julgar se devem continuar a
relação e de que forma continuá-la.
Se, entretanto, no julgamento de qualquer uma das partes, ficar clara a
necessidade de uma redução no envolvimento,
como se processa isto?
DESLIGAMENTO: REDUZINDO O ENVOLVIMENTO COM O SISTEMA DO CLIENTE
Na maioria das minhas experiências o processo de desligamento, caracterizou-se pelo seguinte:
1. a redução do envolvimento
é uma decisão mútua, mais do que uma decisão
unilateral tomada pelo
consultor ou pelo cliente;
2. o envolvimento em geral não desaparece, mas pode continuar com uma intensidade bastante fraca:
3. a porta esta sempre aberta, na minha opinião, para futuros trabalhos com o cliente, se este o deseja.
Deixe-me comentar cada um desses pontos e dar alguns exemplos:
1. Decisões em conjunto. Na maioria d as
minhas relações de consultoria, houve uma época em
que eu senti
que nada mais poderia ser executado e/ou que
alguns membros do sistema do cliente sentiram a
necessidade de continuar por conta própria.
A fim de facilitar a redução do envolvimento, geralmente
verifico
com intervalos de alguns meses, se o cliente
acha que tudo deve permanecer como está ou algo deve ser
alterado. Em alguns casos em que senti que já
se realizou o bastante, verifiquei que o cliente não pensava da
mesma forma e queria continuar mantendo os contatos
na base de um por semana. Em outros casos fui
abordado pelo cliente, como ocorreu na companhia
A, com a declaração de que minha continua presença
nas
reuniões de grupos operacionais não
era mais desejável, segundo seu ponto de vista. Como disse o
presidente, eu começava a assumir características
de um membro regular e, proporcionalmente, diminuía
minha utilidade. Concordei com a decisão
e reduzi meu envolvimento para as reuniões periódicas do
grupo,
as que duravam um dia inteiro (se bem que a iniciativa
de me convidar permanecesse inteiramente com o
grupo). Se eu não tivesse concordado,
teríamos negociado até chegarmos a um acordo mutuamente
satisfatório. Achei-me algumas vezes na
situação de argumentar que desejava permanecer totalmente
envolvido, mesmo quando o cliente queria reduzir
o envolvimento, e, em muitos casos, consegui que o cliente
concordasse comigo.
As negociações que cercam a redução
de envolvimento são, na verdade, uma boa oportunidade para o
consultor diagnosticar o estado em que se encontra
o sistema do cliente. Os tipos de argumentos utilizados
para apoiar a continuação (ou o
término) fornecem uma boa base sólida para a determinação
de quanta
mudança se deu nos valores e na habilidade.
O leitor pode pensar que, já que o cliente está pagando pelo
serviço, ele certamente tem o direito
de tomar decisões unilaterais sobre continuar ou não com
esses
serviços. Meu argumento é que se
o processo de consultoria conseguiu alcançar, mesmo que parcialmente,
os objetivos, deve haver confiança suficiente
entre cliente e consultor para permitir a ambos que tomem uma
decisão em termos cordiais. Novamente,
é importante que o consultor não dependa economicamente de
apenas um cliente, ou sua habilidade em diagnosticar
pode ser influenciada por sua necessidade de
continuar recebendo os honorários.
2. Envolvimento não reduzido a zero. Se
o cliente e o consultor concordam com uma redução no
envolvimento é Importante que ambos reconheçam
que isso não necessariamente significa um rompimento
total. Na realidade, rompimento completo não
é desejável porque a diagnose na qual se baseia uma redução
do envolvimento pode não ser suficientemente
precisa para garantir esse término. Um acordo mais desejável
é diminuir a intensidade para um meio
dia cada três ou quatro semanas, ou estar presente apenas em certos
tipos de reuniões especiais, entrevistar
os membros mais importantes do sistema do cliente uma vez cada
dois ou três meses e assim por diante Através
desse mecanismo, é possível para o cliente e para o consultor
reavaliar, periodicamente, como vão indo
as coisas.
Na companhia B, houve um período em que
senti que havia alcançado uma planície. Nesse ponto, sugeri
uma
redução de envolvimento para meio
dia por semana, e mesmo assim se alguém desejasse especificamente
falar comigo. Depois de alguns meses essa forma
reduzida de intervenção, uma série de acontecimentos
exigiu que o grupo da alta administração
aumentasse mais do que nunca seu grau de eficiência. O grupo
decidiu reunir-se mais vezes e pediu que me envolvesse
novamente com maior intensidade. Essa decisão foi
muito mais fácil de ser negociada a partir
de um envolvimento reduzido, do que teria sido se eu tivesse
terminado completamente o relacionamento.
No meu relacionamento com a companhia F, passa-se
longo tempo sem que eu visite a firma, mas
subentende-se que se surgirem problemas, o cliente
vai poder me chamar a qualquer hora, sabendo que eu
responderei positivamente. O único problema
desse tipo de acordo é que ele torna difícil o planejamento
do
tempo para o consultor. Se vários clientes
decidem aumentar seu envolvimento, todos ao mesmo tempo,
obviamente o consultor não vai atender
a todos. Quando isso ocorre o consultor deve falar francamente sobre
o seu dilema e perguntar aos vários clientes
se eles podem esperar um mês ou coisa parecida. Concluí, por
experiência própria, que posso me
comprometer com quatro clientes ao mesmo tempo, sendo dois deles
mais ativos ( meio dia toda semana), enquanto
os outros dois são "dormentes" (uma visita ocasional a cada
três semanas ou um mês).
3. Envolver-se de novo é sempre possível.
Esse assunto está intimamente relacionado com o anterior, mas
desejo separá-lo para apontar um aspecto
especial da obrigação do consultor de procedimentos. Em
qualquer relação de consulta em
C-P com um cliente, penso que o consultor deve deixar claro que a porta
está sempre aberta para futuros trabalhos,
uma vez iniciada a relação. O motivo dessa obrigação
é que é
difícil para o cliente desenvolver um
bom relacionamento com um consultor, Uma vez que tanto o consultor
quanto o cliente investiram seus esforços
para constituir esse relacionamento, ele não termina
psicologicamente, mesmo que ocorram períodos
prolongados de ausência de contato. Tive essa experiência
com uma série de clientes - deixar de
visitá-los por vários meses e ainda assim ser capaz de me
ajustar ao
grupo bem depressa uma vez restabelecido o contato.
Regra geral, é o cliente que deve restabelecer
o contato, mas não acho que essa regra deve ser levada ao pé
da letra. Após um período sem contato
algum, visitei clientes e perguntei se podíamos conversar sobre
o que
estava se passando. Em muitos casos, tal visita
foi benvinda e serviu de base para alguns conselhos
adicionais ou observações de procedimentos.
O consultor deve cuidar para não violar seu papel, tentando
vender-se para o cliente. Essa deve ser uma investigação
honesta que pode confortavelmente ser rejeitada
pelo cliente se ele o quiser. Fui muitas vezes
rejeitado e sei que não há nada de inerente à situação
que
possa forçar um contato artificial. Ao
contrário, isso algumas vezes ajuda o cliente, que precisa de auxílio
e
queria pedi-lo "sem perder a cara".
14. PERSPECTIVAS DA CONSULORIA DE PROCEDIMENTOS
Quando revejo este livro, chego á conclusão
de que tive diversos objetivos em mente ao escrevê-lo. Primeiro,
queria expor um modelo de consultoria de procedimentos
que, creio, descreve o que o consultor tipicamente
faz (ou deveria fazer) num trabalho de desenvolvimento
organizacional. Muitos dos volumes desta série
fornecem uma visão geral do desenvolvimento
organizacional mas não dão uma visão pormenorizada
do
trabalho do dia-a-dia do consultor. Segundo,
gostaria de tentar explicar, tão claro quanto possível, o
que
ocorreu entre mim, como consultor, e uma série
de clientes que tive no decorrer dos meus anos de trabalho.
Descobri que alguns dos meus colegas alimentaram
algumas concepções errôneas sobre o que eu fazia
quando visitava uma companhia. Queria esclarecer
algumas dessas concepções. Terceiro, desejava
contribuir para a teoria geral da consultoria
organizacional através da ilustração clara de um estilo
de trabalho
com uma organização. Em vista do
aumento da quantidade de pesquisa e de consultoria nas organizações
complexas, é importante que se saiba claramente
o que se está fazendo. Espero ter esclarecido alguns dos
problemas através da descrição
do conceito de consultoria de procedimentos.
Gostaria de terminar este volume fazendo alguns
comentários gerais sobre a consultoria de procedimentos
em relação a outros tipos de atividade,
como uma forma de fornecer alguma perspectiva para esta atividade.
A consultoria de procedimentos, antes de mais
nada é uma forma de estudar as organizações. Acredito
muito
na máxima de Lewin: "Se você quiser
entender algo tente mudá-lo". Muitas das satisfações
do consultor
provêm da combinação das
atividades de diagnóstico e de intervenção, enquanto
permanece
constantemente exposto aos procedimentos organizacionais,
dos quais ele aprende que se passa nas
organizações. Este estado de exposição
enriqueceu e aguçou minhas habilidades para o ensino e para a
pesquisa.
Um dos meus colegas me perguntou por que eu me
preocupava em ensinar os princípios elementares de
psicologia para uns poucos administradores, quando
poderia estar escrevendo relatórios de pesquisa que
influenciariam milhares de pessoas. A primeira
resposta que C-P nada mais é que o ensino de psicologia
elementar. Para mim, é um processo complexo
de produzir mudanças na organização, que não
podem ser
alcançadas com grandes quantidades de
papéis bem escritos. O processo de mudança não é
simplesmente
o de transmitir idéias, mas o de mudar
valores e ensinar habilidades. Tenho muito mais satisfação
em
aumentar a eficiência de uma organização
do que teria se ensinasse a uns poucos administradores um pouco
de psicologia que eles talvez não soubessem
como aplicar em qualquer lugar. A segunda resposta é que a
pesquisa feita em organizações,
por pessoas que não se enfronham nos procedimentos organizacionais,
tem
para mim uma qualidade imaginária-real
porque, focalizando conceitos tão distantes da experiência
diária
dos membros da organização, não
se sabe como generalizar a partir dos resultados. Por outro lado, o tipo
de
diagnóstico que ocorre quando se conduz
uma série de entrevistas, ou quando se observa grupos em ação,
traz à tona fenômenos organizacionais.
O relato sistemático de tais informações é,
sem dúvida, de grande
valia.
A terceira resposta, e talvez a mais importante,
é que o meu ensino seria estéril sem a aprendizagem que a
gente adquire no contato íntimo com as
organizações. Eu poderia, é claro, concentrar-me completamente,
de
tempos em tempos, conseguindo um emprego numa
empresa. Nessa hipótese, além de eu não apreciar a
deslocação forçada, não
tenho certeza de que seria necessária uma transição
tão completa para que eu
obtivesse o tipo de aprendizagem que mencionei.
O consultor de procedimentos freqüentemente
opera na indústria de forma muito semelhante à de um
praticante em medicina; ele é, de certa
forma, um "interno organização". A analogia é válida
se pensamos no
consultor estudando a organização
a chegar a um diagnóstico antes de decidir por um tratamento
especializado. A analogia desaparece, todavia,
se consideramos ser o interno o principal: perito em
diagnose. Ele faz testes, faz perguntas, investiga
e depois entrega o diagnóstico e os conselhos. O consultor
de procedimentos, por seu turno, tenta envolver
a organização numa auto-diagnose e possibilita à
organização que se aconselhe a
si mesma de forma segura.
Uma analogia melhor é pensar no consultor
de procedimentos mo um sócioterapeuta, ou como um treinador
de grupo-T para um sistema que varia em tamanho
e composição de tempos em tempos. Os conceitos de
"diagnose" e de "intervenção útil"
derivam diretamente dos conceitos de treinamento em laboratório.
A
principal diferença entre ajudar um grupo
e realizar um trabalho de consultoria numa organização, reside
na
complexidade do trabalho. Para ser um consultor
de procedimentos eficiente, o indivíduo necessita de
habilidades para diagnosticar e para intervir,
que são um tanto quanto diferentes das utilizadas num grupo de
treinamento de relações humanas.
O consultor de procedimentos não dispõe do ambiente de um
laboratório;
ele não pode contar com o envolvimento
intenso que os grupos de laboratório criam; ele nem mesmo pode
supor que o aprendizado se compare ao do participante
de um laboratório. Através de suas próprias
intervenções, baseado numa estrutura
ambígua de poder e envolvido pela pressão do trabalho que
deve
continuar, ele precisa estabelecer envolvimento
e comprometimento, além de obter aprovação para investigar
procedimentos.
O modelo do socioterapeuta tem algum significado
se consideramos que o consultor está se dedicando,
principalmente, a ajudar o sistema a se ajudar
a si próprio, qualquer que seja o sintoma patológico que
ele
encontre. Uma vez estabelecido um contrato inicial,
o consultor deve estar preparado para trabalhar com o
que quer que ele encontre, e, como o terapeuta,
deve cuidar para não sugerir ao paciente coisas que possam
não ser bem compreendidas, não
dar conselhos que encontrem resistência, e não cair na armadilha
de
pensar que é um perito nessa organização
em particular. Ele é perito unicamente na sua forma de dar ajuda.
Por outro lado, o modelo do socioterapeuta também
tem suas limitações no que se refere à patologia.
Da
minha experiência tirei a conclusão
de que é saudável a organização que se conhece
suficiente para se expor
a uma ajuda, a fim de assegurar sua saúde
futura. As organizações doentes tendem a resistir ao tipo
de ajuda
que o consultor de procedimentos poderia, talvez,
lhes oferecer.
Como pensamento final, gostaria, uma vez mais,
de contrastar C-P com os demais modelos do tipo padrão
de consultoria. O modelo padrão é
aquele no qual o consultor fornece conselhos experientes sobre como
solucionar problemas específicos que a
organização identificado: como melhorar a programação
da
produção, como determinar os custos,
como obter informações de marketing, como aumentar a
produtividade, como selecionar e treinar certos
tipos de funcionários, etc. Mesmo que o trabalho inicial com o
consultor conduza a uma redefinição
do problema, a tarefa do consultor permanece a mesma: auxiliar a
desenvolver uma solução eficiente.
O modelo da consultoria de procedimentos, em contraste,
começa com a suposição de que a organização
sabe como resolver seus problemas particulares,
ou sabe como obter ajuda para sua solução, mas
frequentemente não sabe como utilizar
eficientemente seus próprios recursos, quer na solução
inicial do
problema, quer na implementação
de soluções. O modelo da consultoria de procedimentos ainda
supõe que
o uso inadequado dos recursos internos ou uma
implementação ineficiente resulta dos problemas de
procedimentos humanos. Com isso quero dizer que
as pessoas falham em se comunicar eficientemente umas
com as outras, ou desenvolvem desconfianças,
ou se empenham em concorrência destrutiva, ou punem aquilo
que pretendiam recompensar e vice-versa, ou falham
em fornecer feedback, e assim por diante.
A tarefa do consultor de procedimentos consiste
em ajudar a organização a resolver seus próprios problemas,
tornando-a consciente dos procedimentos organizacionais,
das conseqüências desses procedimentos e dos
mecanismos através dos quais eles podem
ser modificados. O consultor de procedimentos ajuda a
organização a aprender através
da autodiagnose e da auto-intervenção. A última preocupação
do consultor
de procedimentos é certificar-se da capacidade
da organização em realizar sozinha o que ele realizou junto
com ela. Enquanto o consultor técnico
padrão se preocupa mais em passar adiante seus conhecimentos, o
consultor de procedimentos se preocupa em passar
adiante suas habilidades e seus valores.