PROGRAMA DE FORMAÇÃO DE COORDENADORES DE DINÂMICA DE GRUPO / PROGRAMA DE FORMACION DE COORDINADORES DE DINAMICA DE GRUPO
PRÁTICAS GRUPAIS - HISTÓRICO
Osvaldo Saidon et al.
Práticas Grupais, Editora Campus, Rio de Janeiro, 1983
Esta breve introdução histórica visa unicamente
a assinalar os antecedentes mais significativos daquelas
escolas de Psicoterapia de Grupo que podem ser consideradas as de maior
difusão na atualidade. O objetivo
da mesma será, portanto, o de ajudar a situar o leitor no complexo
panorama em que se apresenta a
Psicoterapia de Grupo em nossos dias. Carecemos ainda, por conseguinte,
de um verdadeiro trabalho de
pesquisa historiográfica sobre a produção de conhecimento
em relação aos grupos, particularmente daquela
desenvolvida em nosso país. Este estudo, quando empreendido,
deverá tornar-se um substrato imprescindível
para a produção de uma escola de Psicoterapia de Grupo
que seja produto de nosso próprio
desenvolvimento político-cultural.
O quadro que se segue representa uma tentativa de decifrar as linhas
de influência que podem ser
identificadas em relação às práticas terapêuticas
de grupo mais difundidas no panorama atual deste campo.
Teorias originais da Psicoterapia de Grupo (1930-1962)
T-group (K.Lewin)
Psicanálise
Psicodrama
Desenvolvimentos Teóricos e
Renovações Técnicas sobre
as Teorias Originais (1962 - )
Sensitivity Training
Grupos de Encontro
Gestalt-terapia
Análise Transacional
Grupo Operativo
Grupo Psicanalítico
Análise Institucional
Psicodrama Psicanalítico
Referenciais ideológicos e
filosóficos predominantes nas
diferentes práticas
Filosofia existencial
Irracionalismo
Filosofias Orientalistas
Positivismo
Estruturalismo
Sociologia
materialista-histórica
Linguística Estrutural
Estruturalismo
Espontaneísmo
Sem dúvida - e nisso coincidem diferentes autores - foi o desenvolvimento
tanto da Psicanálise como da
Microssociologia aquele que permitiu o surgimento de um pensamento
original em teoria dos grupos, assim
como a difusão da grupoterapia em diferentes países.
Destacamos ainda, no quadro, o Psicodrama como
uma das práticas que, desde os primórdios, contribuiu
com uma série de conceitos férteis à dinâmica
grupal.
Teve o Psicodrama o valor histórico de, a partir da genialidade
de Moreno, intuir uma série de articulações
possíveis entre o pensamento sociológico e a Psicologia,
tanto através de seu teatro terapêutico como de sua
proposta sociogramática.
Nos dias atuais existem inúmeras práticas grupoterapêuticas
onde se entrelaçam ecleticamente e, às vezes,
sem reconhecimento explícito, as três tendências
originais: a Microssociologia de K.Lewin, a Psicanálise e o
Psicodrama. Este panorama vem a se complicar ainda mais quando percebemos
que tanto o horizonte
político-econômico como o cultural em que se desenvolvem
estas técnicas fazem com que recebam
marcantes influências ideológicas. Estas irão determinar
o tipo de campo (ou espaço) a ser pesquisado,
assim como os limites de seu desenvolvimento. Assim, na coluna 3 buscamos
uma ilustração dos referenciais
ideológicos (filosóficos ou epistemológicos) que
influem mais significativamente sobre cada uma das escolas.
A maioria dos autores coincide ao assinalar, como pioneiro da Psicoterapia
de Grupo, o médico J. Pratts,
que realizou seus trabalhos em 1906 com grupos de tuberculosos. Sua
prática teve uma difusão importante e
consistia, basicamente, em classes coletivas com mais de 80 pacientes,
onde se tentava instalar um regime
de cooperação e emulação mútuas
para que os pacientes pudessem acelerar sua recuperação física
dentro
da clínica. O mérito de Pratts consistiu em utilizar
pela primeira vez as emoções coletivas com vistas a uma
finalidade terapêutica. Sua técnica era ativa e aspirava
à aparição controlada de sentimentos de emulação,
rivalidade e solidariedade no grupo. neste, os "bons pacientes" eram
premiados através de um sistema de
promoções que os colocava mais perto do terapeuta, pois
passavam a se sentar na primeira fila. A estrutura e
função deste tipo de grupo recorda a prática de
certos grupos religiosos que visam a fins similares.
Mas será Moreno aquele que, em 1931, irá cunhar a expressão
Psicoterapia de Grupo. desde 1920, Moreno
já vinha usando técnicas de grupo, e sua abordagem está
centrada na importância, por um lado, das técnicas
sociométricas para a investigação social e, por
outro, na ênfase sobre a catarse e a dramatização de
conflitos
psicológicos como fatores terapêuticos principais.
Em 1936 irão aparecer as primeiras publicações
psicanalíticas, quando L.Wender e depois P.Schillder
começam a usar as técnicas de origem psicanalítica
com Grupos Terapêuticos. Ao mesmo tempo, os
desenvolvimentos no campo da Psicologia e da Microssociologia, que
têm seu investigador mais destacado
em K.Lewin, darão possibilidades para que o trabalho psicoterapêutico
com grupos comece a se assentar
em bases de experimentação. Estas bases concedem, a partir
dos anos 40, um status de cientificidade à
Psicoterapia de Grupo.
Deste momento em diante, a difusão das práticas grupais
em Psicoterapia será progressivamente ampliada,
notadamente a partir das condições de pós-guerra.
A este respeito, assinalam-se frequentemente os
determinantes sociais e as condições econômicas
e políticas que possibilitam o surgimento e o
desenvolvimento das técnicas de grupo no campo da saúde
mental. Citemos algumas: necessidade de
extensão do atendimento em saúde mental a setores mais
amplos da população; aumento da demanda de
atendimento; surgimento de programas comunitários ante a necessidade
de recuperação rápida da
mão-de-obra deteriorada.
A partir dos anos 60 assistimos a uma nova reformulação
no trabalho terapêutico com grupos, influenciada
pelo auge das chamadas técnicas de potencial humano. Estas técnicas
propiciam uma forma de trabalho
não-verbal e deslocam a ênfase do trabalho, antes ligado
à liberação da palavra, para a liberação
do corpo.
Este movimento, que tem sua origem na Califórnia, vai estender-se
por vários países. Atualmente, práticas
como a do Grupo de Encontro de Rogers, a Gestalt-Terapia de Perls e
as orientações bioenergéticas
influenciam marcadamente todo o desenvolvimento da Psicoterapia de
Grupo.
Outra linha que se desenvolve nesta mesma época, retomando os
trabalhos de W.Reich nos primórdios da
Psicanálise, procura articular os conhecimentos psicanalíticos
sobre o inconsciente dos grupos com uma
concepção materialista-histórica da sociedade.
A opção por Freud-Marx para o trabalho com grupos tem seu
desenvolvimento especialmente na América Latina e França,
propondo-se não só a uma prática diferente no
campo psicoterápico, como também a um trabalho ideologizante
no campo da saúde mental. Além disso,
contribui com uma produção teórica significativa
dentro da chamada teoria das ideologias. Generalizando,
podemos incluir dentro desta linha desde a prática de Grupos
Operativos, formulada pela Escola de
Psicologia Social de Pichon-Rivière, até as tendências
atuais da Análise Institucional e Psicossocioanálise na
França.
Influência do pensamento sociológico
Na realidade, é no desenvolvimento da Sociologia moderna que
se observa pela primeira vez o interesse pelo
estudo dos pequenos grupos. O fato de que a experiência imediata
da vida social se situe sempre em grupos
- a família, a turma, os amigos, os colegas de trabalho, o grupo
sindical - fomentou a esperança de que o
estudo dos mesmos nos permitisse descobrir as leis profundas que regem
tanto o indivíduo como a
sociedade. A Psicologia Social chegou assim a ser, para alguns, o paradigma
de toda ciência, aquela que
viria a contornar todos os problemas que assediavam a sociedade contemporânea.
A questão ficava
colocada da seguinte forma: assim como o conhecimento das leis que
regem o pequeno grupo permite ao
psicossociólogo instalar um clima de colaboração
na empresa, escola ou grupo experimental de trabalho, por
que estes métodos não poderiam ser utilizados para por
fim à luta de classes, à guerra, ao racismo etc? O
próprio Moreno e mesmo K. Lewin consideraram seus trabalhos
coerentes com este tipo de projeto, com
base em um otimismo ingênuo que rapidamente se viu absolutamente
injustificado. A extrapolação das
observações sobre os pequenos grupos à sociedade
global acabou fazendo com que os psicossociólogos
funcionassem como agentes de defesa de instituições obsoletas,
organizando artifícios para contornar os
conflitos e a sublevação daqueles grupos que chegavam
a questionar a organização social então vigente.
Assim, um certo "ópio psicológico" veio, mais que a desvelar,
a ocultar a verdadeira realidade social.
Este legado ingênuo e otimista está presente desde a origem
do pensamento sociológico, com Charles
Fourier. Neste pensador utópico, muitos autores vêem o
precursor da atual psicossociologia. Com Fourier
começaram as preocupações experimentais em relação
ao trabalho com grupos, já no século XIX. Fourier
propôs um experimento global, de ampla duração,
com a constituição de uma comunidade, denominada
falange, caracterizada pela supressão da repressão. Esta
comunidade ideal, composta por um determinado
número de pessoas, funcionaria como uma sociedade socialista,
na qual nada seria deixado à improvisação,
mediante um plano de traçado sistemático e preciso. Fourier
tentava, assim, organizar um sistema de
harmonia social, fundado na constituição de grupos organizados
com base nas "paixões" do homem e em
sua psicologia.
G. Lapassade assinala que a obra de Fourier, apesar de sua aparente
ingenuidade, está cheia de
antecipações daquilo que apenas um século depois
irá propor a Psicologia dos Grupos ou Psicossociologia,
como, por exemplo: a criação de grupos artificiais com
tarefas comuns, a impossibilidade de separar
investigação de aplicação e o fato de que
as mudanças pedagógicas, psicológicas e políticas
sejam
necessariamente solidárias.
Mas serão dois grandes iniciadores europeus das Ciências
Humanas - Durkheim e Freud - aqueles que irão
permitir que se assentem as bases para uma Psicossociologia dos grupos
restritos. Durkheim, considerado
fundador da Escola Sociológica Francesa, interessa-se em grau
considerável pelos grupos específicos:
família, escola e sindicato. Além de ser o criador da
expressão "dinâmica social", Durkheim produzirá uma
série de conceitos e teorias, relativos à solidariedade,
à anomia e aos símbolos sociais, contribuindo para a
compreensão de processos coletivos.
Alguns anos depois, Freud esclarecerá as relações
entre o líder e o grupo, através de sua concepção
acerca
do ideal do ego e dos enlaces libidinais que regulam a existência
de qualquer agrupamento.
Tanto o modelo sociológico como o psicanalítico prepararam
o terreno onde Kurt Lewin, em 1944, irá cunha a
expressão "dinâmica de grupo" em um artigo dedicado às
relações entre a teoria e a prática da Psicologia
Social. A dinâmica de grupo, guiada pela metodologia da "investigação
ativa", inspirou a criação de um
organismo de estudos, o Research Center of Group Dynamics, que, em
1948, integrou-se ao Instituto de
Pesquisa Social da Universidade de Michigan. Não nos estenderemos
sobre a corrente lewiniana, já que
neste texto lhe dedicamos um capítulo especial. Digamos aqui,
apenas, que as duas concepções básicas da
dinâmica lewiniana, aceitas hoje pela quase totalidade das correntes
são:
a) a investigação e a intervenção devem estar estreitamente relacionadas;
b) a mudança e a resistência à mudança constituem os aspectos essenciais da vida dos grupos.
Pouco tempo depois, na Argentina, Enrique Pichon-Rivière irá
tentar uma articulação entre as teorias
lewinianas e a Psicanálise. De suas experiências pioneiras
em trabalho com grupos na América Latina irá
surgir uma importante corrente de Psicologia Social, capaz de produzir
uma série de conceitos originais para
a prática psicológica e psiquiátrica. Surgirá,
assim, a teoria dos grupos operativos, onde, através de uma
epistemologia convergente, serão ensaiadas fecundas articulações
entre a Microssociologia e a Psicanálise,
com vários conceitos oriundos do materialismo histórico.
Influência da Psicanálise
O prestígio crescente da corrente psicanalítica dentro
do campo das psicoterapias na América Latina fará
com que o estudo e o trabalho se voltem para o desenvolvimento da aplicação
da Psicanálise aos grupos. Em
1957, com a publicação de Psicoterapia de Grupo, de Grinberg,
Langer e Rodrigué, ficou definitivamente
instalada a corrente psicanalítica de grupo na América
Latina, a qual continua exercendo uma enorme
influência em todos os desenvolvimentos subsequentes neste campo.
Faremos aqui uma breve referência ao desenvolvimento histórico
da Psicanálise de Grupo, remetendo o leitor
ao capítulo correspondente para uma abordagem mais detalhada
sobre as contribuições teóricas de cada um
dos pioneiros da mesma.
Em toda a Europa, mas especialmente na Inglaterra, as idéias
de Lewin exerceram marcante influência sobre
vários psicanalistas que se dispunham a tentar a aplicação
do legado freudiano ao trabalho com grupos. A
Escola de Tavistock iniciou uma série de investigações
e os primeiros trabalhos publicados já estavam
assinados por aqueles que são ainda hoje considerados os pioneiros
da Psicanálise de Grupo: Ezriel,
Foulkes, Anthony, Bion, Slavson. O intenso intercâmbio entre
as correntes inglesas e argentina de Psicanálise
fará com que o desenvolvimento da Psicanálise de Grupo
se veja cada vez mais influenciado pelas idéias de
Melanie Klein, segundo a sistematização de Bion. Este
autor inglês fará a originalidade dos conceitos
kleinianos aplicados a grupos. Sua teoria dos pressupostos básicos
e do grupo de trabalho fornece novo
impulso à tentativa de fundamentar cientificamente a Psicanálise
de Grupo. Nestas mesmas bases,
sociedades de Psicanálise de Grupo serão fundadas em
vários países.
Mais recentemente, a partir dos anos 60, surge o que podemos denominar
Escola Francesa de Psicoterapia
de Grupos que, a partir dos trabalhos de Anzieu, Kaes, Missenard e
outros, aprofundará o conceito de
inconsciente grupal, propondo uma série de articulações
originais entre o kleinismo dominante e alguns
conceitos psicanalíticos reformulados pela escola de J. Lacan.
As idéias do grupo entendido como um sonho,
de inconsciente grupal, de aparelho psíquico grupal e do líder
como resistência são algumas das mais
fecundas desta orientação.
Influência das Escolas de Potencial Humano
Conforme já assinalamos, a partir dos anos 60 uma série
de novas técnicas começaram a ser introduzidas no
trabalho com grupos. Georges Lapassade caracterizou esta etapa como
dominada pelo desenvolvimento
tecnológico, "levado em seu movimento tanto pela modernização
das técnicas como pelo desenvolvimento da
automatização e as transformações das indústrias
modernas com novas formas de gestão".
O princípio de não-diretividade será a principal
bandeira de toda esta restruturação do campo
psicoterapêutico, tendo em Rogers seu principal gestor. O centro
das análises, a partir deste momento, estará
menos na compreensão da dinâmica grupal do que no questionamento
da relação terapêutica: "em resumo, a
não diretividade é uma política antes de ser uma
psicologia genética, um método terapêutico ou uma nova
concepção da Pedagogia".
A capacidade de impugnação que esta corrente traz às
práticas terapêuticas mais tradicionais vai colocar o
núcleo de sua prática junto a todo um movimento de contestação
psiquiátrica que surge na mesma época.
Porém o exagerado psicologismo, tanto como o apoliticismo da
maioria destas correntes (Bioenergética,
Gestalt-terapia, Grupos de Encontro etc.) irá reduzir seu trabalho,
na atualidade, a uma série de reformulações
técnicas no interior do trabalho com grupos.
Influência da Análise Institucional
Finalmente, em 1962, na França, surge a corrente de Análise
Institucional, que procurará abordar o grupo na
relação instituinte-instituído, estudando a instituição
como lugar de reprodução das contradições sociais.
A
Análise Institucional vai encontrar na Socioanálise proposta
por Lourau ou na Esquizoanálise de Deleuze e
Guattari sua dimensão intervencionista, segundo o levantamento
de um dispositivo analisador que revele o
oculto e o que provoca as crises existentes nos diferentes agrupamentos.
Esta corrente assume
manifestamente seu conteúdo político, onde a luta de
classes e o papel do Estado serão determinantes
fundamentais na constituição do sujeito, assim como na
elaboração do complexo de Édipo.
A proposta terapêutica consiste em transformar os grupos sujeitados
(aqueles cujas leis vêm do exterior) em
grupos-sujeitos, capazes de repensar sua submissão e criar suas
próprias leis. A chamada Esquizoanálise, a
partir das noções da Psicologia Institucional, afirmará
que o ato terapêutico é um ato institucional determinado
pelo coletivo e pelos outros. Os grupos de base propostos por esta
corrente evitariam as relações
hierárquicas e institucionalizadas. F.Guattari propõe
uma multiplicidade de grupos que irão substituindo,
desde a base, as instituições propostas pelas classes
dominantes. Como vemos, o falanstério de Fourier,
com concepções às vezes mais científicas
ou mais sofisticadas, reaparece a cada novo proposta no campo
da Psicologia dos Grupos.