PRÁTICAS GRUPAIS - OS GRUPOS DE ENCONTRO
Osvaldo Saidon et al.
Práticas Grupais, Editora Campus, Rio de Janeiro, 1983
Na proposta teórica de Rogers, encontram-se influências
com origem em sua vida pessoal, que o próprio
autor considera significativas. Assim, o Protestantismo, religião
familiar, que o autor diz abandonar para
interessar-se por enfoques religiosos mais modernos, e menos austeros
e conservadores, é uma das
influências. O estudo das Ciências Físicas e Biológicas
e da História, também. Tendo conhecido Dewey e
Kilpatrick, foi com Hollingworth que Rogers conhecer a Psicologia,
sob um enfoque humanista. Rogers
observa que se incompatibilizou com o que chama "espírito especulativo"
freudiano e "concepções
estatísticas" de Thorndike. Rogers assinala a grande influência
de Otto Rank, em oposição ao que considera
formulações dogmáticas, que encontrou em outros
discípulos de Freud. Cita ainda Cartwright e Maslow como
autores que o influenciaram.
Os postulados que definem sua proposta são:
1) Tendência atualizante: todo organismo tem a tendência inata a desenvolver suas potencialidades;
2) Tendência à atualização do eu: segundo
o desenvolvimento da estrutura do eu, essa tendência se
expressa na atualização de parte da experiência
do organismo que está simbolizada no eu. Quando há
acordo entre o organismo e o eu (e respectivas experiências),
a tendência opera de modo unificado);
3) Experiência: é tudo que engloba o que sucede no organismo
e que está potencialmente disponível para a
consciência;
4) Experimentar: recepção pelo organismo da repercussão
dos fatos sensoriais ou fisiológicos; 5)
Representação, simbolização, consciência
(termos sinônimos): a consciência é a simbolização
de parte de
nossa experiência;
6) Disponibilidade para a consciência: quando a experiência
pode simbolizar livremente, sem negação
defensiva nem distorção;
7) Simbolização correta: reconhecimento de que toda percepção
é de natureza transacional, ou seja, uma
construção que surge de nossa experiência passada
e também como uma hipótese para o futuro;
8) Perceber, percepção: hipótese que emerge à
consciência como reação a estímulos que incidem
sobre o
organismo;
9) Subcepção: quando um sujeito é incapaz de realização
discriminações conscientes, mas as faz em níveis
inferiores ao nível requerido para a representação
consciente;
10) Experiência do eu: todo fato de campo fenomênico discriminado
pelo indivíduo e que se discrimina como
eu (self);
11) Eu, conceito do eu, estrutura do eu: estes termos se referem à
Gestalt conceitual composta de
percepções das características do eu e das percepções
das relações do eu;
12) Eu ideal: conceito do eu que o indivíduo desejaria possuir;
13) Incongruência entre o eu e a experiência: quando o sujeito
se encontra nesse estado, está exposto à
tensão e confusão interior. O conceito refere-se à
não-simbolização adequada;
14) Vulnerabilidade: perigo de desorganização psíquica, quando há incongruência entre o eu e a experiência;
15) Angústia: estado de incômodo ou tensão com causa ignorada. Incongruência entre o eu e a experiência;
16) Ameaça: quando o indivíduo se dá contra ou
prevê que uma experiência é incongruente com sua estrutura
do eu;
17) Inadaptação psicológica: quando o organismo
se nega a conscientizar certas experiências (ou as
distorce);
18) Defesa e estado de defesa: reação comportamental do
organismo à ameaça. Tem como objetivo manter
a estrutura habitual do eu;
19) Distorção, negação do acesso à
consciência: material incongruente com o conceito do eu. O organismo
reage produzindo uma distorção para preserva a ameaça
à estrutura do eu;
20) Rigidez perceptiva: se a pessoa se impressiona de forma rígida,
tem a tendência a considerar a
experiência em termos absolutos, a generalizar excessivamente;
21) Estado de congruência entre o eu e a experiência: simbolização adequada;
22) Abertura à experiência: polo oposto à atitude
de defesa. Qualquer estímulo é transmitido livremente sem
que nenhuma defesa o distorça ou interrompa;
23) Adaptação psicológica: a estrutura do ego permite a integração simbólica da totalidade da experiência;
24) Percepção discriminativa: tendência a considerar a experiência em termos delimitados e diferenciados;
25) Maturação: percepção realista e discriminativa, valorativa de si mesmo e dos outros;
26) Contato: quando o sujeito está em relação com
o outro e cada um afeta o campo experiencial do outro de
forma perceptível ou subliminar;
27) Consideração positiva: quando a experiência
do outro modifica positivamente o campo experiencial do
sujeito (afeto, carinho, aceitação);
28) Necessidade de consideração positiva: necessidade secundária ou adquirida;
29) Consideração positiva incondicional: se as experiências
do outro são recebidas pelo sujeito com
consideração positiva, este experimenta uma consideração
positiva incondicional para com o outro;
30) Complexo de consideração: configuração
de experiências relativas ao eu, que para o sujeito implica uma
atitude de consideração positiva de alguém para
si próprio;
31) Consideração positiva de si mesmo: sentimento do sujeito,
experimentado a partir de uma experiência e
independente da consideração positiva de outros;
32) Necessidade de consideração positiva de si mesmo:
necessidade secundária ou adquirida que se
relaciona com a necessidade de consideração positiva
dos outros;
33) Consideração incondicional de si mesmo: quando o sujeito
se percebe de modo que todas as
experiências parecem dignas de consideração positiva;
34) Valorização condicional: quando o sujeito busca ou
evita certas experiências do eu por considerá-las
mais ou menos dignas de consideração positiva;
35) Centro de valorização: fonte dos critérios
aplicados pelo sujeito na valorização de sua experiência.
A
fonte interna refere-se ao sujeito como centro de valorização.
A fonte externa, quando os outros se convertem
em critérios de valores para o sujeito;
36) Processo de valorização organísmica: este conceito
se refere a um processo em contínua evolução, no
qual os valores nuca são fixos ou rígidos;
37) Marco de referencia interno: abarca todo o campo de experiências
(percepções, sensações,
significações, recordações) acessíveis
à consciência do sujeito;
38) Empatia: perceber corretamente o marco de referencia interno do
outro, sem perder a condição de "como
se" ao colocar-se no lugar do outro;
39) Marco de referencia externo: perceber a partir de um marco de referencia
interno objetivo, sem
"empatizar" com a pessoa ou objeto observado.
Para Rogers, sua Teoria da Terapia e da Mudança da Personalidade
é do tipo condicional. Se se dão certas
condições (variáveis independentes), será
produzido um processo (variável dependente) que inclui certos
elementos característicos.
As condições do processo terapêutico são:
a) que duas pessoas estejam em contato;
b) que o cliente esteja em estado de incongruência, vulnerabilidade ou angústia;
c) que o terapeuta seja congruente;
d) que o terapeuta experiencie uma consideração positiva
incondicional e empática frente ao marco de
referencia interno do cliente
e) que o cliente perceba as condições citadas em (d).
O processo da terapia inclui ainda que o cliente possa, cada vez mais,
expressar seus sentimentos, distinguir
sentidos e percepções (ser mais discriminativo) e organizar
suas experiências, antes distorcidas. O cliente,
então, passará a viver experiências ameaçadoras
com menos intensidade e os mecanismos defensivos
serão menos significativos. Além disso, perceberá
a si mesmo como centro de valor. A cura, portanto, inclui
uma maior congruência, menos defesas, mais percepções
e um desenvolvimento da "adaptação
psicológica". Rogers considera que, deste modo, ocorre uma mudança
na estrutura do eu, que se tornaria
menos vulnerável, passando o "eu ideal" a ser mais realista.
O aumento da congruência entre o eu e o "eu
ideal" e entre o eu e a experiência produziriam uma diminuição
geral da tensão, promovendo uma maior
consideração positiva de si mesmo, e maior aceitação
do outro. O cliente, então, se revelaria como um ser
mais criativo, capaz de adaptar-se a cada situação e
problema, expressar seus valores.
Para o autor, a incongruência entre o eu e a experiência
ocorre devido à necessidade de consideração
positiva de si mesmo e à valorização condicional
a que chega a submeter-se o sujeito para atender à
necessidade. As experiências contrárias à valorização
condicional, então, são percebidas seletivamente,
distorcidas ou negadas.
Os mecanismos de defesa, para o autor, consistem em uma percepção
seletiva ou distorcida da experiência
e a negação da experiência à consciência.
Para que a experiência não seja vivida ameaçadoramente,
isto é, para que seja assimilada à estrutura do eu,
é preciso que o sujeito se valorize, possa ter empatia. É
importante, então que perceba a consideração
positiva incondicional do terapeuta.
Numa relação (ou grupo), é necessário que
o sujeito consinta em entrar em contato com outro, que por sua
vez deverá ter um alto grau de congruência entre sua experiência
como objeto de comunicação do sujeito,
simbolizar essa experiência em termos de conceito de si mesmo
e expressar essa experiência. Esse
processo refere-se à consideração positiva reciproca,
que Rogers considera como uma relação
enriquecedora e que poderia ser vivida pelos sujeitos quando portadores
de uma estrutura do eu adequada.
O objetivo do trabalho com grupo, portanto, resume-se assim: quando
existe entre as partes um desejo mútuo
de entrar em contato, quanto mais elevado seja o grau de congruência
realizado pela experiência, pela
percepção e pela conduta, a relação se
caracterizará em maior grau por: a) uma tendência à
comunicação
recíproca; b) uma compreensão mútua e adequada;
c) um aumento de satisfação proporcionada na relação;
d) um funcionamento melhor dos sujeitos (leis das relações
interpessoais).
Sobre os enunciados propostos, Rogers dirá que é necessário
desenvolver instrumentos de medição para
comprovar as hipóteses dedutivas. No campo específico
dos grupos, afirma que as hipóteses sobre a
liderança, facilitação de aprendizagem e redução
dos conflitos sociais parecem ser campos particularmente
fecundos em termos de um aprofundamento teórico e de estudo.
Resumindo algumas das propostas do movimento dos Grupos de Encontro,
tal como Rogers as formula em
relação ao trabalho psicoterapêutico com grupos,
podemos apontar os seguintes itens:
a)As experiências grupais devem ser predominantemente prolongadas
e intensas, para facilitar o clima
afetuoso e permissivo tão caro à ideologia de trabalho
de Rogers.
b) O líder do grupo deve evitar toda manipulação.
Deve ser absolutamente não-diretivo e facilitador das
expressões grupais, especialmente aquelas de caráter
emotivo-afetivo.
c) Deve ter sempre uma atuação "real" e espontânea.
Não deve nunca mostrar uma conduta afetada em
função de seu papel profissional, e sim recorrer à
sua própria personalidade para enfrentar as situações.
d) A técnica de trabalho predominante do líder (que seria
melhor denominado facilitador) se baseia na
compreensão empática e emprega fundamentalmente o chamado
"reflexo", devolução especular do próprio
discurso do cliente.
Outra consideração técnica sobre a liderança,
assinalada por Rogers, é a seguinte: procurar que no grupo se
esclareça sempre a significação pessoal do manifesto,
evitando que seja usado um dos membros ou o grupo
para ocultar a própria individualidade. O líder ou facilitador
do grupo deve expressar sua própria insatisfação
quando considerar conveniente. O facilitador deverá se expressar
fisicamente, se possível. Por exemplo,
caminhará quando estiver ansioso, inclusive terá contato
físico com os clientes, se o desejar "genuinamente".
O líder deve aceitar todo tipo de comunicação,
proporcionando com isso um clima de aceitação de si mesmo
em cada um dos membros do grupo. Evitará de todas as formas
emitir qualquer juízo de valor.
Em relação à dinâmica do Grupo de Encontro,
insistirá em facilitar toda e qualquer expressão de
espontaneidade, e em não programar previamente atividades e
jogos que poderiam cortar o livre
desenvolvimento do grupo. não há planos nem táticas
terapêuticas prefixadas.
Marcelo Lerner, estudioso argentino ligado ao pensamento de Rogers,
assim sintetiza o sentido dos Grupos
de Encontro: "O núcleo atual dos movimentos dos Grupos de Encontro
fundamenta-se em duas vertentes, or
um lado a idéia original de Kurt Lewin de melhorar as relações
humanas, e, por outro lado, a Terapia
Centrada no Cliente, que propõe m encontro básico consigo
mesmo e com o próximo."
A teoria que fundamente esta terapia - que Rogers inicialmente chamou
de não-diretiva e que mais tarde
denominou Terapia Centrada no Cliente - se baseia em três conceitos
básicos, citados anteriormente:
a) Congruência
b) Empatia
c) Consideração positiva incondicional.
O próprio Rogers define sinteticamente estes conceitos: "Empatia
é sentir o mundo interno do cliente com a
significação que tem para ele, senti-lo como se fosse
o próprio mundo, mas sem perder nunca a qualidade de
"como se". Quanto à consideração positiva incondicional,
"o terapeuta adota uma atitude cálida positiva, de
aceitação a respeito do que existe em seu cliente. É
um sentimento positivo em relação ao outro sem
nenhuma reserva nem avaliação. Isto quer dizer que não
se forma juízo algum". O conceito de congruência,
talvez o mais central no pensamento de Rogers, se refere ao fato de
"o terapeuta ser verdadeiramente ele
mesmo na relação com seu cliente, ser autêntico,
sem fachadas". É experiencialmente ele mesmo, não se
nega. Quanto mais capaz demonstra ser a complexidade de seus sentimentos,
sem nenhum temor, tanto mais
congruente é. Isto implica a difícil tarefa de conhecer
o fluxo experiencial que se propaga em si mesmo, fluxo
este caracterizado muito particularmente por sua complexidade e mudança
contínua.
Comentários Críticos
Como é fácil verificar, na postura de Rogers existe uma
negação absoluta do conflito e da agressividade. Na
medida em que Rogers não admite a existência do inconsciente
e, portanto, da transferencia e da
contratransferência, o terapeuta está entregue a seus
próprios sentimentos mas como reconhecer estes
sentimentos? Qual é o seu significado? Sabemos que tal fluxo
complexo de sentimentos tem algo a ver com o
inconsciente e que possui uma significação que não
é imediatamente dada. Em troca "o terapeuta rogeriano
deve transmitir seus sentimentos ao cliente, se for conveniente".
A pergunta a se fazer seria: a que e a quem convém? Assim, o
terapeuta não é diretivo, é benevolente, acaba
possuindo a máxima autoridade de erigir-se, sem maiores fundamentos,
e capaz de fazer as coisas que
convêm.
O rogeriano se sente profundamente incomodado quando se vê preso
de sentimentos negativos, e precisa
comunicá-los rapidamente, seja para livrar-se dos mesmos, seja
para realizar um dos truques mais
conhecidos de sedução, que consiste em demonstrar uma
sinceridade complacente. Finalmente, a negação
da agressividade e os postulados otimistas do movimento de Rogers proíbem
a projeção de imagens más ou
hostis no terapeuta.
Esta observação foi particularmente desenvolvida pela
Escola Sócio-Psicanalítica de Gerar Mendel. Uma das
autoras desta corrente, Patrícia Ranjar, assinala que o surgimento
e desenvolvimento da teoria rogeriana é
mais um sinal da degradação da imagem paterna, assim
como dos valores que ela carrega, em prol de uma
espécie de subjetivismo gnoseológico. Apoiando-se na
Psicanálise, critica o terapeuta rogeriano como
aquele que se apresenta permanentemente como a mãe boa, fonte
de inspiração e domínio do irracional,
deixando de lado a imagem paterna, representante da racionalidade e
da verdade.
Em Carl Rogers, segundo a mesma autora, haveria, portanto, uma descaracterização
do pai e da
racionalidade, e uma consequente regressão à mãe.
Isto levaria ao subjetivismo absoluto, que nega a
possibilidade de se conhecer a realidade, e à caracterização
exclusiva do aqui-e-agora, que, ressaltando a
casualidade, leva à irresponsabilidade ou a uma fantasia de
liberdade ilimitada. Tudo isto estaria a serviço de
ocultar as relações de poder e as lutas reivindicatórias
entre os diferentes grupos.
O fenômeno do não-diretivismo ter uma enorme influência
no campo da Educação, e, em nome de Rogers foi
defendida uma postura antiautoritária por parte dos professores.
A oposição à diretividade nos métodos
pedagógicos encontrou na teoria rogeriana uma importante justificativa.
A conduta qualificada de diretiva
numa situação educacional é precisamente aquela
que consiste em tomar uma decisão sobre o que devem
fazer os educandos, contando com que esta decisão os comprometa,
mas sem recorrer à força nem à
ameaça, apoiando-se, portanto, no superego, em seus reflexos
condicionados de submissão. A diretividade
que vai ser questionada por Rogers apóia-se no sentimento de
culpa, no temor de não mais ser amado pelo
pai-professor, na eterna necessidade de ser amado.
Ora, a não-diretividade proposta não foi instituída
numa posição claramente definida. A única definição
dada
é uma definição negativa, "não ser diretivo",
ou não ser de certa maneira suscetível de ser diretivo. Não
é uma
categorização positiva de uma atitude nova, e sim uma
descaracterização de atitudes do passado.
Como crítica a este procedimento, P. Ranjard, afirma que, na
realidade, o professor, com a atitude chamada
não-diretiva, recupera grande parte de sua segurança
ameaçada. Primeiramente porque conserva a
iniciativa, erigindo os alunos em iguais. Assim, escapa da frustração
que implicaria não ser amado por eles e
incorrendo, às vezes sem o saber, numa série de condutas
sedutoras. "Pretendem frustrar-me opondo-se a
meus desejos? Não conseguirão, não tenho desejos!
Além de tudo, sua formação é problema deles,
não
meu." Este sólido argumento permite que o professor não-diretivo
não transmita o saber de que é depositário:
"Não vou dizer-lhe como faço; vire-se, reflita."
A conduta assim não-diretiva, na medida em que está motivada
no inconsciente do professor pela
necessidade de recuperar uma segurança ameaçada, só
pode ser sentida no inconsciente dos alunos como
uma castração do pai. O professor-coordenador com seu
silencio (em geral não responde perguntas) deixa
os alunos sozinhos frente às imagens maternas projetadas no
grupo, na instituição ou na sociedade global, e
sua conduta se torna imprevisível, portanto onipotente e arbitrária.
Transcreveremos aqui as palavras de um professor de Sociologia que,
em oposição à moda não-diretiva na
Pedagogia francesa, publicou o seguinte: "Meu curso não é
uma festa; não é senão um curso, e eu não sou
senão um professor. É a oportunidade de analisar a ideologia
dominante e a organização do sistema,
inclusive mediante a denúncia da relação que mantenho
com meus alunos. Não é possível destruir e construir
ao mesmo tempo: minha tarefa revolucionária é dar armas,
não inventar o Socialismo aqui-e-agora". A
colocação dessa polêmica sobre o papel ideológico
que acaba cumprindo um determinado tipo de atitude no
campo pedagógico nos parece muito ilustrativa para o tema que
nos interessa.
O aprofundamento desta discussão em relação ao
trabalho da coordenação de grupos, terapêuticos ou
não,
nos dará bases para recolocar várias das posturas que
Rogers recomenda ao facilitador ou líder grupal. Se
compartilhamos das críticas que transcrevemos acima, acreditamos
também, que na prática da psicoterapia
com grupos estas devem ser relativizadas, assinalando-se as contribuições
do enfoque da Escola Rogeriana.
Esta colocação é vista por nós fundamentalmente
quanto ao fato de trazer uma visão mais humanista e
igualitária das relações entre terapeuta e cliente,
entre coordenador e grupo, o que possibilita o
questionamento de uma série de atitudes francamente repressivas
e manipuladores na prática da saúde
mental.
Assim, a enorme amplitude da prática dos Grupos de Encontro,
sua organização multitudinária, as
experiências comunitárias e "liberalizantes" que propõem,
têm, de uma forma ou de outra, uma influência
entre os trabalhadores de saúde mental, o que contribui para
uma atitude crítica em relação aos aspectos
mais estereotipados da prática psiquiátrica e psicanalítica.
Por outro lado, uma crítica produtiva da teoria de Rogers é
justificada na medida em que, dentre todas as
técnicas das novas psicologias que surgiram na segunda metade
deste século, é a única que tem uma
fundamentação ético-filosófica. Não
existe nela uma preocupação científico-epistemológica
(embora nos
últimos tempos Rogers faça incursões neste terreno),
e sim uma tentativa de fundamentação de sua prática
em torno de um corpo filosófico que, em síntese, podemos
identificar com uma espécie de Existencialismo
kierkegaardiano. Este Existencialismo adaptado aos diferentes movimentos
irracionalistas, que surgem como
ideologia da depressão do pós-guerra, permite que Rogers
seja um ideólogo capaz de captar as aspirações
de setores aparentemente tão distantes como os que vão
dos anarquistas radicais até setores empresariais.
A este respeito, J. Roux, em seu livro Irracionalidade em Psicologia,
comenta: "o não-diretivismo, que
começou com uma exaltação demagógica e
simplista da liberdade do homem, acaba propondo, para o
trabalho de problemas de relacionamento, o uso de receitas para "bons
ouvintes" ou administradores
modernos."
A influência lewiniana notada na teoria de Rogers influi diretamente
em sua concepção sobre os grupos. A
prática grupal se transforma numa Pedagogia, numa educação
ou numa reeducação para permitir que as
pessoas desenvolvam sua capacidade de "livre arbítrio", conceito
ideologicamente vinculado ao
Protestantismo e ao Calvinismo, tão próprios do pensamento
americano. É como se os valores estivessem
disponíveis para sua livre escolha, e uma certa imutabilidade
social e uma permanência dos valores
permitisse uma classificação entre valores aceitáveis
e não-aceitáveis.
Na realidade, a História nos mostra uma situação
muito distinta, onde a adequação ou não dos valores
à vida
de uma coletividade é medida pelo número de transgressões
às normas que estes valores impõem. A maior
ou menor facilidade para a introjeção de valores sociais
nos indivíduos não é, então, um mero problema
pedagógico, é a expressão da relação
de tais preceitos com os indivíduos do grupo num determinado
momento da história deste.
Como já vimos anteriormente, esta perspectiva histórica,
que guia nosso trabalho, é o caminho que nos deve
levar à proposta de uma prática grupalista, assinalando
constantemente a conjuntura institucional e os valores
que se geram e se modificam na prática social.
O trabalho de campo, realizado através das entrevistas com alguns
representantes da corrente rogeriana no
Rio de Janeiro, nos permite algumas observações sobre
as características deste tipo de trabalho em nosso
meio.
O trabalho realizado por Rogers no Brasil se deu através da organização
de encontros multitudinários, onde
centenas de pessoas trabalharam com ele e colaboradores, em grandes
grupos em forma de maratona, num
local distante da grande cidade e rodeado de belezas naturais, a fim
de favorecer o clima afetuoso e
hedonista que esta escola propicia. Como produto destes encontros,
que se vêm repetindo anualmente,
surgiu no Rio uma organização, que poderia ser considerada
a instituição rogeriana do Rio de janeiro. Esta
instituição, segundo seus diretores, não proporciona
uma formação: o que realiza são os chamados grupos
de treinamento. Esta posição em relação
a seu trabalho formativo viria da própria Pedagogia que surge da
Filosofia Rogeriana.
Já vimos que o não-diretivismo pedagógico fomentado
pela escola não permitiria propor uma formação. Isto
é reforçado pela própria teoria de Rogers, cuja
transmissão não autorizaria uma formação realizada
dentro de
qualquer variante do ensino acadêmico. Segundo seu próprio
autor, e os entrevistados frisaram
repetidamente este ponto, esta é uma teoria inacabada, em formação,
e, por suas próprias características,
não-sistematizável. O treinamento consiste, portanto,
predominantemente na vivência experiencial, onde o
papel de aprendizagem e o terapêutico estão absolutamente
ligados, e são quase uma e a mesma coisa.
Uma característica marcadamente assumida pelos representantes
desta escola, e que não se repete nas
demais, é um papel bastante claro em defesa de sua classe profissional
de psicólogos. Chegaram, inclusive,
a colocar sua instituição como uma alternativa ao poder
médico na formação, e colocam um trabalho tanto
psicológico como sindical em primeiro plano, com tentativa de
definir e afirmar a identidade do psicólogo.
Não podemos tirar conclusões sobre a relação
desta posição com a linha rogeriana de instituição.
A título de
hipóteses, digamos que vemos esta atitude como uma derivação
ideológica do movimento que suscita a
ação da prática dos Grupos de Encontro, como de
outras tendências das chamadas Técnicas de Potencial
Humano. A própria característica contestatória
destas práticas, em relação às formas mais
tradicionais e,
portanto, mais medicalizantes do trabalho terapêutico, faz com
que acabem por levantar questões relativas,
inclusive ao campo da luta política e da luta pelo poder no
campo de prática psicoterapêutica. Questionam de
fato a afirmação do poder médico sobre o trabalho
de outros profissionais, como psicólogos, enfermeiros,
assistentes sociais etc. e a perduração da hierarquização
existente na organização da saúde.
Vemos nisso um exemplo de como a realização de certas
práticas, que colocam uma atitude
antiintelectualista, irracionalista com predomínio do corporal
em detrimento do verbal, somente pelo que isto
implica de questionamento das formas mais instituídas de funcionamento,
pode às vezes transformar-se num
caminho para uma nova racionalidade. Esta racionalidade é gerada
a partir de ações que, a partir de uma
concepção psicanalítica, poderiam ser consideradas
actings, mas que permitem a produção de um processo
de reflexão (por exemplo, como neste caso, sociopolítico)
e a organização de uma ação de luta fora do
grupo
restrito, e estendida a todo o campo social. O exemplo da luta de alguns
psicólogos contra a lei que
restringiria suas atividades é um bom exemplo disto. Então,
na medida em que a própria teoria está
construída em cima de uma crítica ao tipo de valoração
médica em relação ao processo terapêutico, facilitará
a seus aderentes uma atitude menos dúbia e contraditória
na confrontação com as instituições do poder
medicalizante, coisa que não acontece, por exemplo, com aqueles
psicólogos que aderem às correntes mais
psicanalíticas. De qualquer forma, esta afirmação
profissional do psicólogo que desenvolve a corrente
rogeriana em nosso meio não transcende ativa nem militantemente
ao campo das instituições. Ante a
pergunta de por que é tão precário o trabalho
terapêutico dos Grupos de Encontro nas instituições
públicas,
os entrevistas se limitam a assinalar a presença de interesses
políticos, administrativos e entraves
burocráticos. Esta relação de exterioridade com
o problema nos parece mostrar claramente como o nível
contestatório do trabalho dos Grupos de Encontro se detém
no momento em que começa seu desinteresse
por Política e, inclusive, sua apatia ante o conflito e as lutas
sociais. A Política, na medida em que pode ser
fonte de desprazer, de postergação das organizações
hedonistas dos grupos que esta orientação propicia, é
vista como um dos males de nossa sociedade. Começando a fugir
delas, saem das instituições e até da
própria realidade conflitiva e angustiante em que vivem.