Mexican Institute of Group and Organizational Relations

NORMAS


A NORMALIZAÇÃO

A normalização exprime a pressão que se exerce durante uma interação em vista da adoção de uma posição
aceitável por todos os indivíduos. Num grupo, ela exprime a convergência das opiniões e a adesão a um
compromisso aceito por todos os membros desse grupo.

Em todo fenômeno de normalização, existe uma redução das diferenças, e a interação chega a um consenso
que leva o indivíduo a perceber todo problema novo dentro de um sistema de referência comum. Há
normalização todas as vezes em que o grupo é confrontado com um problema ao qual ninguém, por sua
experiência, competência ou posição, pode trazer uma solução pronta, e em que os membros do grupo
interagem para encontrar uma solução comum.

A ILUSÃO AUTOCINETICA DE SHERIF

Esse experimento de Sherif é uma das primeiras tentativas de experimentação em Psicologia Social.
Colocado num quarto escuro, o sujeito é levado a observar um ponto luminoso fixo. Em plena escuridão, as
percepções visuais perdem seu quadro de referência habitual e, na falta de qualquer ponto de referência, o
ponto luminoso parece deslocar-se: é o fenômeno da ilusão autocinética.

Pede-se então ao sujeito que faça um estimativa dos deslocamentos do ponto. Ele formula uma série de
estimativas que pouco se estabilizam em torno de uma estimativa que corresponde à sua norma pessoal,
norma que ele tenderá a reproduzir durante outros experimentos. Essa norma pessoal pode apresentar
grandes diferenças das estimativas dos outros sujeitos. Eis porque, num segundo tempo, quando as normas
pessoais forem assim fixadas, cada sujeito é colocado diante das estimativas dos outros e todos exprimem
suas estimativas em voz alta.

Nessa situação, as interações dos membros acarretam uma modificação progressiva das estimativas de
cada um dos indivíduos, que abandonam suas próprias normas pessoais para estabelecerem com os outros
uma norma de grupo. Durante o experimento, o sujeito toma consciência de um desvio entre suas próprias
estimativas e as dos outros membros do grupo. Sente um mal-estar que o leva pouco a pouco a reduzir o
desvio através de um processo de ajustamento recíproco. As diferenças são progressivamente reduzidas e
constitui-se uma norma para o conjunto do grupo. Cada indivíduo reduz assim a incerteza e encontra maior
segurança num julgamento comum. A norma é a fonte da estabilidade.

Esse experimento, efetuado várias vezes, reproduz sempre os mesmos processos. É, pois, um fenômeno
geral, que pode ser encontrado em todos os grupos colocados diante de uma situação nova.

Se existe no grupo uma pessoa cuja competência ou posição é reconhecida pelos membros do grupo, a
norma do mesmo tenderá a fixar-se em torno da avaliação dessa pessoa. Nesse caso, há ajustamento em
torno de sua posição. Sua norma individual torna-se um ponto de referência numa situação em que a
ausência de indicações cria um mal-estar.

A norma é um processo de redução da incerteza. Uma posição comum adotada a partir de um consenso tem
um efeito mais tranquilizador do que a percepção de diferenças de desvios. Uma vez estabelecida a norma
do grupo, torna-se difícil desviar-se dela: o indivíduo deve conformar-se.

O CONFORMISMO

O conformismo define o comportamento de um indivíduo ou de um subgrupo que é determinado pela regra de
um grupo.

A pressão à conformidade supõe de um lado uma maioria e de outro uma minoria. A maioria é ligada a essa
regra e toda a interação social visará a imposição de seus pontos de vista à minoria. Por um sistema de
sanções ou de valorizações, os indivíduos minoritários são levados a aceitar as regras da maioria. Há uma
redução dos desvios e reforço das regras do conjunto majoritário.

O EFEITO DE ASCH

Nesse experimento, nove sujeitos são reunidos num laboratório. São colocados diante de um quadro sobre o
qual foram postos doze pares de cartolina. Na cartolina da esquerda existe uma linha vertical (figura de base)
e na da direita são desenhadas três linhas verticais de comprimentos diferentes, numeradas de 1 a 3, um das
quais representando a linha de base.

No grupo experimental, oito comparsas do experimentador respondem antes do sujeito ingênuo com o qual é
feito o experimento. Os comparsas designam como sendo iguais à linha de base linhas manifestamente
diferentes.

A tarefa aqui tem uma resposta correta, mas há um desvio notável entre a resposta do grupo e a resposta do
indivíduo isolado. A comunicação dos julgamentos é a única interação possível entre a maioria e o indivíduo, e
a pressão só transparece nesse desvio de julgamento entre as duas avaliações.

Ao invés de ficar na dúvida e na incerteza, o indivíduo acaba se conformando com a atitude da maioria. O
conformismo do sujeito será aumentado se reforçarmos a dependência do indivíduo em relação ao grupo: por
exemplo, o grupo é apresentado como particularmente atraente e o indivíduo deseja então integrar-se nele.
No entanto, é preciso notar que, quando o sujeito está de novo sozinho, ele volta às estimativas corretas. Por
outro lado, se o sujeito for confirmado pelo experimentador em suas próprias estimativas, sua confiança será
então reforçada, e numa nova situação de experimento ele questionará as aptidões do grupo. Enfim, o
conformismo acha-se reduzido se, entre os comparsas, um só indivíduo der uma resposta idêntica à do
sujeito ingênuo; para estimativas manifestamente erradas, o número de influenciados cai então de 32% para
10%.

Mais do que a influência de uma maioria numérica, é a unanimidade do grupo que é fonte de influência e leva
o desviante a conformar-se com as normas da maioria.

As situações de conformismo social são encontradas sempre que o isolamento e a confrontação com novas
normas provocam uma ansiedade. Isolado de seus quadros de referência, o indivíduo acaba adotando os
quadros de referência do novo grupo. Esse processo de isolamento é aliás uma prática usual cada vez que se
trata de transformar as normas, os valores de um indivíduo. Nas prisões, nas casas de reeducação de todos
os tipos, nos grupos que têm por função transformar o indivíduo, o fato de isolá-lo de suas reações sociais
anteriores leva-o a conformar-se com as novas normas.

A INOVAÇÃO

Nem todos os indivíduos se submetem às normas dos grupos; alguns conseguem dobrar as regras da maioria
e impor seu próprio modelo; nesse caso, os hábitos da maioria são transformados pela ação de uma minoria.

Para o senso comum, é sob a ação dos sujeitos mais populares (os que representam as figuras centrais do
grupo) que as normas e os valores podem modificar-se pouco a pouco em resposta aos imperativos de uma
nova situação. Assim, os indivíduos de status elevado, na medida em que gozam de maior confiança, de
maior crédito, seriam os mais capazes de inovação e de mudança.

Em outros termos, uma mudança só poderia realizar-se dentro de uma maioria, na medida em que o indivíduo
tivesse conquistado pouco a pouco a confiança do grupo e fosse reconhecido como portador de uma
competência especial. Desse modo, para melhor ser seguido, seria preciso primeiro seguir os outros, nunca
enfrentar a maioria e esperar o momento oportuno para propor sua mudança. Toda inovação seria então um
compromisso e os maiores inovadores seriam os mais hábeis conformistas e os mais oportunistas. Nesse
sentido, bastaria ser Presidente da República para propor a mudança. No entanto, como observam Faucheux
e Moscovici, os maiores inovadores distinguiram-se por sua constância e intransigência. Seja Copérnico,
Galileu, Freud ou Marx, o que impressiona é a constância de suas idéias e sua vontade de afirmar seus
princípios a despeito da reação da maioria.

Para demonstrar experimentalmente a realidade da influência de uma minoria sobre uma maioria, Faucheux e
Moscovici formulam a seguinte hipótese: se uma minoria for coerente, isto é, se adotar constantemente uma
mesma posição, tornar-se-á capaz de influenciar uma maioria.

Da mesma forma, é possível mostrar que uma maioria deve ser fiel a um princípio para que suas normas
sejam preservadas. Com efeito, uma maioria que não é fiel a seus princípios, constante em suas opiniões,
que não é unânime, exerce menos influência do que uma minoria unânime. A fidelidade dos sujeitos a um
princípio tem portanto um peso maior do que o seu número; não há relação, na eficácia de uma maioria, entre
seu tamanho e sua influência. Assim, para que uma norma ou valor subsista, é necessário que a maioria
adote um comportamento fiel a seus princípios, fidelidade ao mesmo tampo sincrônica e diacrônica, isto é, os
comportamento devem ser repetidos no tempo por um conjunto de indivíduos solidários.

INFLUÊNCIA E NORMAS INSTITUCIONAIS

As instituições são o que institui, ou seja, o que dá início, o que estabelece, o que forma (Littré). Uma
instituição visa definir um modo de regulação global da sociedade e tem por objetivo manter um estado, "fazer
durar" e garantir uma transmissão. Assim, a família, a escola, a Igreja, o exército são instituições; são grupos
que têm sua lei, seus sistemas de regras, seu tipo de transmissão de um certo saber e uma vontade de
influência sobre o conjunto das relações sociais.

Enriquez distingue as características fundamentais de uma instituição:

- As instituições baseiam-se num saber que tem força de lei, um sistema de valor e de ação, e que se
apresenta como a expressão da verdade. A coesão das instituições é fornecida por um saber teorizado e
indiscutível. O pensamento teológico da Igreja, as matérias ensinadas na escola, a concepção do homem no
exército e na família formam corpos de noções estritamente articuladas. Qualquer questionamento desse
saber, dessas regras é sentido como um ataque direto às próprias bases das instituições.

- A lei deve ser interiorizada em comportamentos, em regras de vida organizadas. Desde a mais tenra idade,
a criança recebe a interioriza todas essas regras de conduta que nem sempre são explicitadas, mas
propostas como um modelo ideal, para o qual se deve caminhar.

- Por isso, as instituições se apresentam diretamente como reprodutoras. Procuram sempre fazer durar,
reproduzir os mesmos comportamentos, os mesmos homens, segundo uma forma que foi dada de uma vez
por todas.

- Elas são pois essencialmente "educativas" ou "formativas"...Referem-se a um certo tipo de homem (o bom
aluno, o crente, o bom soldado) que tentam promover. Visam a imposição de todo um sistema de conduta.

- Nessa educação, a coerção é um elemento forte. Todo um sistema de proibições, de limites está
constantemente em jogo. Ao sistema de condicionamento positivo que felicita e recompensa o respeito à
regra, acrescentam-se as sanções, onde a violência é mais ou menos manifesta, reprimindo qualquer desvio
muito grande ou muito visível, com relação às normas institucionais.

Um dos primeiros objetivos das instituições é, pois, a produção de uma ideologia, no sentido em que a
ideologia é um sistema de idéias, de valores, de julgamentos explícitos e geralmente organizados que permite
explicar e justificar a situação de um grupo ou de uma coletividade.

Esta análise mostra bem que as instituições propõem um conjunto de valores que são coerentes entre si. E é
por serem fiéis aos seus princípios que garantem a estabilidade das normas num meio social. Se as
instituições propusessem sistemas de valores contraditórios, todo o conjunto social estaria ameaçado.

Embora a influência das instituições seja, assim, evidente na interiorização das normas e dos valores, os
mecanismos psicológicos são, por sua vez, mais difíceis de entender.

Se analisarmos porém a figura central em torno da qual se articula cada instituição, o pai para a família, o
mestre para a escola, o "pai do regimento" para o exército, o Santo Padre para a Igreja, todas remetem à
noção do Pai pelo qual se encarnam a regra e os valores. É com efeito no protótipo da relação pai-filho que
se baseiam todas as relações educativas nas instituições. A dependência fisiológica da criança pequena nos
primeiros meses de sua vida torna-se uma dependência psicológica: dependência diante do Pai,
dependência diante da figura de autoridade. A relação professor-aluno inscreve-se também nesse tipo de
modelo.

Em todas as instituições, esse tipo de relação será constantemente posto em jogo e tentará ser repetido em
todas as situações de influência. De fato, a relação de dependência da primeira infância é bem o protótipo da
relação de influência, pois cada vez que se tratar de influenciar alguém, apelar-se-á para o status e a
"competência", qualidades que remetem a uma figura de autoridade. E é, portanto, com relação às suas
reações às primeiras imagens de autoridade que o marcaram, ou seja, às primeiras identificações, que
podemos compreender melhor a atitude de um indivíduo. Sua resistência às influências de outrem, sua
dependência, exigirão uma análise a partir dessas imagens que o formaram.

Enfim, é preciso dizer que em quase todas as situações de influência encontramos mecanismos psicológicos
descritos por Freud. As instituições só apelam para a repressão violenta em último recurso: quase sempre
processos de regressão, de repressão psicológica bastam para assegurar a aceitação dos valores
defendidos por essas instituições.

Quando o jovem convocado chega ao quartel, cortam-lhe os cabelos, ele veste um uniforme, responde a um
número de inscrição. Todas essas medidas tendem a tirar-lhe os sinais de sua identidade anterior e a fazê-lo
regressar a um nível em que lhe seja possível aceitar sua situação. Devotado à instituição, ele deverá reprimir
seus próprios desejos e concordar em identificar-se com o novo papel que lhe é proposto. A repressão
psicológica é pois uma constante em todas as instituições: as mais duráveis (o exército, as ordens religiosas)
foram aliás as que estabeleceram uma nítida separação entre os sexos.

Amado & Guitet

A Dinâmica da Comunicação nos Grupos.