NORMAS
A NORMALIZAÇÃO
A normalização exprime a pressão que se exerce
durante uma interação em vista da adoção de
uma posição
aceitável por todos os indivíduos. Num grupo, ela exprime
a convergência das opiniões e a adesão a um
compromisso aceito por todos os membros desse grupo.
Em todo fenômeno de normalização, existe uma redução
das diferenças, e a interação chega a um consenso
que leva o indivíduo a perceber todo problema novo dentro de
um sistema de referência comum. Há
normalização todas as vezes em que o grupo é confrontado
com um problema ao qual ninguém, por sua
experiência, competência ou posição, pode
trazer uma solução pronta, e em que os membros do grupo
interagem para encontrar uma solução comum.
A ILUSÃO AUTOCINETICA DE SHERIF
Esse experimento de Sherif é uma das primeiras tentativas de
experimentação em Psicologia Social.
Colocado num quarto escuro, o sujeito é levado a observar um
ponto luminoso fixo. Em plena escuridão, as
percepções visuais perdem seu quadro de referência
habitual e, na falta de qualquer ponto de referência, o
ponto luminoso parece deslocar-se: é o fenômeno da ilusão
autocinética.
Pede-se então ao sujeito que faça um estimativa dos deslocamentos
do ponto. Ele formula uma série de
estimativas que pouco se estabilizam em torno de uma estimativa que
corresponde à sua norma pessoal,
norma que ele tenderá a reproduzir durante outros experimentos.
Essa norma pessoal pode apresentar
grandes diferenças das estimativas dos outros sujeitos. Eis
porque, num segundo tempo, quando as normas
pessoais forem assim fixadas, cada sujeito é colocado diante
das estimativas dos outros e todos exprimem
suas estimativas em voz alta.
Nessa situação, as interações dos membros
acarretam uma modificação progressiva das estimativas de
cada um dos indivíduos, que abandonam suas próprias normas
pessoais para estabelecerem com os outros
uma norma de grupo. Durante o experimento, o sujeito toma consciência
de um desvio entre suas próprias
estimativas e as dos outros membros do grupo. Sente um mal-estar que
o leva pouco a pouco a reduzir o
desvio através de um processo de ajustamento recíproco.
As diferenças são progressivamente reduzidas e
constitui-se uma norma para o conjunto do grupo. Cada indivíduo
reduz assim a incerteza e encontra maior
segurança num julgamento comum. A norma é a fonte da
estabilidade.
Esse experimento, efetuado várias vezes, reproduz sempre os mesmos
processos. É, pois, um fenômeno
geral, que pode ser encontrado em todos os grupos colocados diante
de uma situação nova.
Se existe no grupo uma pessoa cuja competência ou posição
é reconhecida pelos membros do grupo, a
norma do mesmo tenderá a fixar-se em torno da avaliação
dessa pessoa. Nesse caso, há ajustamento em
torno de sua posição. Sua norma individual torna-se um
ponto de referência numa situação em que a
ausência de indicações cria um mal-estar.
A norma é um processo de redução da incerteza.
Uma posição comum adotada a partir de um consenso tem
um efeito mais tranquilizador do que a percepção de diferenças
de desvios. Uma vez estabelecida a norma
do grupo, torna-se difícil desviar-se dela: o indivíduo
deve conformar-se.
O CONFORMISMO
O conformismo define o comportamento de um indivíduo ou de um
subgrupo que é determinado pela regra de
um grupo.
A pressão à conformidade supõe de um lado uma maioria
e de outro uma minoria. A maioria é ligada a essa
regra e toda a interação social visará a imposição
de seus pontos de vista à minoria. Por um sistema de
sanções ou de valorizações, os indivíduos
minoritários são levados a aceitar as regras da maioria.
Há uma
redução dos desvios e reforço das regras do conjunto
majoritário.
O EFEITO DE ASCH
Nesse experimento, nove sujeitos são reunidos num laboratório.
São colocados diante de um quadro sobre o
qual foram postos doze pares de cartolina. Na cartolina da esquerda
existe uma linha vertical (figura de base)
e na da direita são desenhadas três linhas verticais de
comprimentos diferentes, numeradas de 1 a 3, um das
quais representando a linha de base.
No grupo experimental, oito comparsas do experimentador respondem antes
do sujeito ingênuo com o qual é
feito o experimento. Os comparsas designam como sendo iguais à
linha de base linhas manifestamente
diferentes.
A tarefa aqui tem uma resposta correta, mas há um desvio notável
entre a resposta do grupo e a resposta do
indivíduo isolado. A comunicação dos julgamentos
é a única interação possível entre a
maioria e o indivíduo, e
a pressão só transparece nesse desvio de julgamento entre
as duas avaliações.
Ao invés de ficar na dúvida e na incerteza, o indivíduo
acaba se conformando com a atitude da maioria. O
conformismo do sujeito será aumentado se reforçarmos
a dependência do indivíduo em relação ao grupo:
por
exemplo, o grupo é apresentado como particularmente atraente
e o indivíduo deseja então integrar-se nele.
No entanto, é preciso notar que, quando o sujeito está
de novo sozinho, ele volta às estimativas corretas. Por
outro lado, se o sujeito for confirmado pelo experimentador em suas
próprias estimativas, sua confiança será
então reforçada, e numa nova situação de
experimento ele questionará as aptidões do grupo. Enfim,
o
conformismo acha-se reduzido se, entre os comparsas, um só indivíduo
der uma resposta idêntica à do
sujeito ingênuo; para estimativas manifestamente erradas, o número
de influenciados cai então de 32% para
10%.
Mais do que a influência de uma maioria numérica, é
a unanimidade do grupo que é fonte de influência e leva
o desviante a conformar-se com as normas da maioria.
As situações de conformismo social são encontradas
sempre que o isolamento e a confrontação com novas
normas provocam uma ansiedade. Isolado de seus quadros de referência,
o indivíduo acaba adotando os
quadros de referência do novo grupo. Esse processo de isolamento
é aliás uma prática usual cada vez que se
trata de transformar as normas, os valores de um indivíduo.
Nas prisões, nas casas de reeducação de todos
os tipos, nos grupos que têm por função transformar
o indivíduo, o fato de isolá-lo de suas reações
sociais
anteriores leva-o a conformar-se com as novas normas.
A INOVAÇÃO
Nem todos os indivíduos se submetem às normas dos grupos;
alguns conseguem dobrar as regras da maioria
e impor seu próprio modelo; nesse caso, os hábitos da
maioria são transformados pela ação de uma minoria.
Para o senso comum, é sob a ação dos sujeitos mais
populares (os que representam as figuras centrais do
grupo) que as normas e os valores podem modificar-se pouco a pouco
em resposta aos imperativos de uma
nova situação. Assim, os indivíduos de status
elevado, na medida em que gozam de maior confiança, de
maior crédito, seriam os mais capazes de inovação
e de mudança.
Em outros termos, uma mudança só poderia realizar-se dentro
de uma maioria, na medida em que o indivíduo
tivesse conquistado pouco a pouco a confiança do grupo e fosse
reconhecido como portador de uma
competência especial. Desse modo, para melhor ser seguido, seria
preciso primeiro seguir os outros, nunca
enfrentar a maioria e esperar o momento oportuno para propor sua mudança.
Toda inovação seria então um
compromisso e os maiores inovadores seriam os mais hábeis conformistas
e os mais oportunistas. Nesse
sentido, bastaria ser Presidente da República para propor a
mudança. No entanto, como observam Faucheux
e Moscovici, os maiores inovadores distinguiram-se por sua constância
e intransigência. Seja Copérnico,
Galileu, Freud ou Marx, o que impressiona é a constância
de suas idéias e sua vontade de afirmar seus
princípios a despeito da reação da maioria.
Para demonstrar experimentalmente a realidade da influência de
uma minoria sobre uma maioria, Faucheux e
Moscovici formulam a seguinte hipótese: se uma minoria for coerente,
isto é, se adotar constantemente uma
mesma posição, tornar-se-á capaz de influenciar
uma maioria.
Da mesma forma, é possível mostrar que uma maioria deve
ser fiel a um princípio para que suas normas
sejam preservadas. Com efeito, uma maioria que não é
fiel a seus princípios, constante em suas opiniões,
que não é unânime, exerce menos influência
do que uma minoria unânime. A fidelidade dos sujeitos a um
princípio tem portanto um peso maior do que o seu número;
não há relação, na eficácia de uma maioria,
entre
seu tamanho e sua influência. Assim, para que uma norma ou valor
subsista, é necessário que a maioria
adote um comportamento fiel a seus princípios, fidelidade ao
mesmo tampo sincrônica e diacrônica, isto é, os
comportamento devem ser repetidos no tempo por um conjunto de indivíduos
solidários.
INFLUÊNCIA E NORMAS INSTITUCIONAIS
As instituições são o que institui, ou seja, o
que dá início, o que estabelece, o que forma (Littré).
Uma
instituição visa definir um modo de regulação
global da sociedade e tem por objetivo manter um estado, "fazer
durar" e garantir uma transmissão. Assim, a família,
a escola, a Igreja, o exército são instituições;
são grupos
que têm sua lei, seus sistemas de regras, seu tipo de transmissão
de um certo saber e uma vontade de
influência sobre o conjunto das relações sociais.
Enriquez distingue as características fundamentais de uma instituição:
- As instituições baseiam-se num saber que tem força
de lei, um sistema de valor e de ação, e que se
apresenta como a expressão da verdade. A coesão das instituições
é fornecida por um saber teorizado e
indiscutível. O pensamento teológico da Igreja, as matérias
ensinadas na escola, a concepção do homem no
exército e na família formam corpos de noções
estritamente articuladas. Qualquer questionamento desse
saber, dessas regras é sentido como um ataque direto às
próprias bases das instituições.
- A lei deve ser interiorizada em comportamentos, em regras de vida
organizadas. Desde a mais tenra idade,
a criança recebe a interioriza todas essas regras de conduta
que nem sempre são explicitadas, mas
propostas como um modelo ideal, para o qual se deve caminhar.
- Por isso, as instituições se apresentam diretamente
como reprodutoras. Procuram sempre fazer durar,
reproduzir os mesmos comportamentos, os mesmos homens, segundo uma
forma que foi dada de uma vez
por todas.
- Elas são pois essencialmente "educativas" ou "formativas"...Referem-se
a um certo tipo de homem (o bom
aluno, o crente, o bom soldado) que tentam promover. Visam a imposição
de todo um sistema de conduta.
- Nessa educação, a coerção é um
elemento forte. Todo um sistema de proibições, de limites
está
constantemente em jogo. Ao sistema de condicionamento positivo que
felicita e recompensa o respeito à
regra, acrescentam-se as sanções, onde a violência
é mais ou menos manifesta, reprimindo qualquer desvio
muito grande ou muito visível, com relação às
normas institucionais.
Um dos primeiros objetivos das instituições é,
pois, a produção de uma ideologia, no sentido em que a
ideologia é um sistema de idéias, de valores, de julgamentos
explícitos e geralmente organizados que permite
explicar e justificar a situação de um grupo ou de uma
coletividade.
Esta análise mostra bem que as instituições propõem
um conjunto de valores que são coerentes entre si. E é
por serem fiéis aos seus princípios que garantem a estabilidade
das normas num meio social. Se as
instituições propusessem sistemas de valores contraditórios,
todo o conjunto social estaria ameaçado.
Embora a influência das instituições seja, assim,
evidente na interiorização das normas e dos valores, os
mecanismos psicológicos são, por sua vez, mais difíceis
de entender.
Se analisarmos porém a figura central em torno da qual se articula
cada instituição, o pai para a família, o
mestre para a escola, o "pai do regimento" para o exército,
o Santo Padre para a Igreja, todas remetem à
noção do Pai pelo qual se encarnam a regra e os valores.
É com efeito no protótipo da relação pai-filho
que
se baseiam todas as relações educativas nas instituições.
A dependência fisiológica da criança pequena nos
primeiros meses de sua vida torna-se uma dependência psicológica:
dependência diante do Pai,
dependência diante da figura de autoridade. A relação
professor-aluno inscreve-se também nesse tipo de
modelo.
Em todas as instituições, esse tipo de relação
será constantemente posto em jogo e tentará ser repetido
em
todas as situações de influência. De fato, a relação
de dependência da primeira infância é bem o protótipo
da
relação de influência, pois cada vez que se tratar
de influenciar alguém, apelar-se-á para o status e a
"competência", qualidades que remetem a uma figura de autoridade.
E é, portanto, com relação às suas
reações às primeiras imagens de autoridade que
o marcaram, ou seja, às primeiras identificações,
que
podemos compreender melhor a atitude de um indivíduo. Sua resistência
às influências de outrem, sua
dependência, exigirão uma análise a partir dessas
imagens que o formaram.
Enfim, é preciso dizer que em quase todas as situações
de influência encontramos mecanismos psicológicos
descritos por Freud. As instituições só apelam
para a repressão violenta em último recurso: quase sempre
processos de regressão, de repressão psicológica
bastam para assegurar a aceitação dos valores
defendidos por essas instituições.
Quando o jovem convocado chega ao quartel, cortam-lhe os cabelos, ele
veste um uniforme, responde a um
número de inscrição. Todas essas medidas tendem
a tirar-lhe os sinais de sua identidade anterior e a fazê-lo
regressar a um nível em que lhe seja possível aceitar
sua situação. Devotado à instituição,
ele deverá reprimir
seus próprios desejos e concordar em identificar-se com o novo
papel que lhe é proposto. A repressão
psicológica é pois uma constante em todas as instituições:
as mais duráveis (o exército, as ordens religiosas)
foram aliás as que estabeleceram uma nítida separação
entre os sexos.
Amado & Guitet
A Dinâmica da Comunicação nos Grupos.