Mexican Institute of Group and Organizational Relations

INDIVÍDUO, GRUPO, SOCIEDADE

Therese Telenge

A primeira formulação da Gestalt-terapia enquanto tal, se deu na época em que Perls estava em contato
direto com culturalistas da escola psicanalítica norte-americana. Em toda sua obra se nota uma busca
semelhante à destes, de clarificar as relações individuo-sociedade e articular os níveis biológico, psicológico
e sócio-cultural. Em seu pensamento há um certo "vai e vem" e, em suas formulações sobre o comportamento
humano, saúde e neurose, uma oscilação entre uma maior ênfase nas dimensões dinâmicas e econômicas
intrapsíquicas, segundo sua formação psicanalítica original, e uma concepção que privilegia as dimensões
inter-subjetivas e sócio-culturais. A sua intenção é, sem a menor dúvida, a de integrar estas dimensões
mediante os conceitos de campo; contato e fronteira de contato.

Estes conceitos, centrais na Gestalt-terapia, são básicos também para a elaboração de um modelo
conceitual de grupo e processos grupais condizentes com as premissas gestálticas, mas sobretudo
correspondem ao eixo principal da preocupação de Perls, reconhecível em toda a sua obra, encontrar uma
conceituação e uma linguagem que pudessem superar o tradicional pensamento dicotômico, corpo-mente,
sujeito-objeto, natureza-cultura, indivíduo-sociedade.

Seguem algumas citações que ilustram essa preocupação: "Em qualquer investigação biológica, psicológica
e sociológica devemos partir da interação do organismo e seu meio"(..) Chamemos a essa interação
organismo-meio de campo organismo-meio e lembremo-nos de que, não importa como teorizarmos sobre
impulsos, drives, etc., sempre estaremos nos referindo a tal campo de interação e não a um ser isolado(...) "A
experiência ocorre na fronteira entre organismo e seu meio"(...) "Experiência é a função desta fronteira.
Falamos em um organismo contatando um meio mas é o contato que é a realidade mais simples e primeira".

"É na fronteira de contato que os eventos psicológicos ocorrem. Nossos pensamentos, ações e
comportamento e nossas emoções são a nossa forma de experienciar e ir ao encontro destes eventos
fronteiriços"(...). "Sullivan e seguidores se aproximam mais de uma consideração do jogo interacional no
campo, mas mesmo no pensamento deles a ênfase é distorcida pelo dualismo básico dos conceitos. Nossa
bordagem, que considera o ser humano como - simultaneamente e por natureza - um indivíduo e membro do
grupo social, nos fornece uma base operacional mais ampla".

Perls pensa nas questões de saúde e neurose dentro desta concepção de campo, fronteira e contato.
Organismo e meio se encontro numa relação de mutualidade. Uma qualidade de contato caracterizada por
vivacidade e espontaneidade é a marca da saúde. Pôr outro lado, estereotipia, confusão desconexão e
outros distúrbios, mais ou menos acentuados o crônicos, de contato pertencem à esfera da patologia.

A relação de mutualidade não exclui o conflito. Nessa situação conflitiva, o indivíduo acaba sendo visto,
frequentemente, como vítima de um meio social defeituoso, que interfere nos processos espontâneos de
desenvolvimento individual: "Se tivéssemos instituições razoáveis, tampouco haveria neuróticos. Ao invés de
uma unidade dinâmica de necessidade e convenção social, na qual os seres humanos se descobrem e
descobrem uns aos outros, constituindo-se criativamente, somos forçados a pensar em três abstrações em
guerra - o "mero" animal, o "self" individual exasperado e as pressões sociais." Mais adiante, já não
considera o conflito como um "acidente" e, sim, como inerente à condição humana: "É provável que em nossa
época exista um conflito irreconciliável entre uma desejável harmonia social e a expressão individual
igualmente desejável(...) Por outro lado, é provável (mesmo sendo estas probabilidades contraditórias entre
si) que esses conflitos irreconciliáveis sempre fizeram parte da condição humana, e que o sofrimento a eles
ligado, e a mobilização em direção a uma solução conhecida sejam as bases da excitamento humano."

Mais especificamente sobre a neurose: "Todos os distúrbios neuróticos surgem da incapacidade do indivíduo
de encontrar e manter o equilíbrio adequado entre si próprio e o resto do mundo, e todos têm em comum que,
na neurose, a fronteira ambiental é sentida como estendendo-se demasiadamente sobre o indivíduo. A
neurose é uma manobra defensiva para proteger-se contra a ameaça de ser sobrepujado por um mundo
esmagador."

Sem dúvida existe nas afirmações citadas a intenção de se opor a uma concepção de normal e patológico
que vê explícita - ou implicitamente, como meta da terapia o ajustamento do indivíduo à sociedade constituída.