FAZENDO AS AUSÊNCIAS PRESENTES:
A CONTRIBUIÇÃO DE W. R. BION PARA
ENTENDER O FENÔMENO SOCIAL INCONSCIENTE
David Armstrong
Traduzido por Mauro Nogueira de Oliveira
Minha tarefa hoje é apresentar a vocês um modo de pensamento
sobre grupos e vida de grupo associado com o
nome de Wilfred Bion. Eu direi algo mais sobre ele em um momento. Antes
de fazer isso eu quero dizer que estou
amedrontado totalmente com esta tarefa e por várias razões.
Primeiro, porque eu conheço pouco seu idioma e então
tenho que falar a vocês e tentar comunicar pela distância
de uma língua estrangeira. Segundo, porque o modo de
pensamento de Bion pode parecer pouco conhecido em qualquer idioma,
quase como uma língua estrangeira.
Quando ele estava trabalhando como psiquiatra na Clínica Tavistock,
antes da Segunda Guerra Mundial, um jovem,
altamente talentoso escritor irlandês bastante improdutivo, veio
ver Bion como paciente. O escritor era Samuel
Beckett. Na ocasião Beckett tinha publicado um estudo de Proust
e algumas pequenas histórias e poemas. Mais
tarde, depois que deixou o tratamento, ele começou a produzir
numa sucessão sem igual romances e peças que o
fizeram famoso.
Até onde eu sei, nem Beckett nem Bion se referiram em público
um ao outro e ao que tinha acontecido entre eles.
Mas há quem diga que há algo de Bion em Beckett e algo
de Beckett em Bion. Por exemplo, ambos utilizam a ironia.
Ambos exploram o reino do paradoxo da vida humana. Ambos são
peculiarmente sensíveis e alertas ao que está
calado, não declarado e não desafiado em nossas relações
e negócios. Bion é talvez mais otimista. Mas o seu é
um
otimismo que foi duro de ganhar, que enfrentou desespero e não
será sustentado pelo conforto das falsas ilusões
sobre as fontes do comportamento humano.
E ambos são confusos, no sentido de que têm que confundir
o que querem dizer, sem prover qualquer direção para o
entendimento. Que me conduz a uma terceira razão para me sentir
amedrontado.
Porque o pensamento de Bion foi muito influente em alguns círculos
e incluo esses nos quais Bob Young, Gordon
Lawrence e eu trabalhamos; e porque ao mesmo tempo poucos de nós
temos o seu gênio peculiar para a não
diretividade: a tolerância da dúvida, a confusão,
o não saber, sempre cria uma tentação a interpretar
o que ele diz;
fazer isto é plausível, não é chocante
nem aparentemente estranho.
Eu estou bem seguro que farei o mesmo, aqui e agora, hoje. Eu não
me desculpo particularmente por isso, desde
que isso seria se desculpar para o que eu sou. Mas eu penso que é
um terreno propício para notar o perigo.
Bion, em minha visão, é um pensador de transformação.
Ele pode mudar o modo de ver as coisas humanas, em
particular para mim as coisas que acontecem em nossas vidas sociais
e compromissos. Mas como todos os
pensadores de transformação, o poder dos seus escritos
mente em suas alusões, suas sugestões, seu não ser
-
usar uma frase inglesa que eu espero não tentem traduzir completamente
"se deitou na linha".
No que segue, eu direi algo sobre a base de Bion e as experiências
que ele realizou, de 1940 em diante, desenhando
a sua contribuição à dinâmica de grupos
e, depois, aos indivíduos.
Tentarei oferecer um pequeno esboço desta contribuição
assim como a relação com nossa experiência social em
grupos e organizações. Então finalmente eu direi
algo sobre a relevância desta contribuição, como eu
vejo isto, para
as várias preocupações que nos reúnem hoje.
O curso de uma vida.
Wilfred Bion nasceu no final do século, de pais britânicos,
na Índia. O pai dele era funcionário público, parte
de um
poder ocupador, o Raj britânico. Na infância, Bion e sua
irmã mais jovem seguiam os costumes das famílias de
Anglo-lndianos, em grande parte não pela mãe deles mas
sim pela sua "ayah" indiana que combinava os papéis e
deveres de criada e babá.
Com a idade de oito anos, conforme a prática imemorial da classe
média britânica no estrangeiro, lhe enviaram,
incompreensivelmente, para uma escola na Inglaterra e nunca mais voltou.
Durante os próximos dez anos ele viveu a
vida de um colegial inglês: intenso, competitivo, elitista e
exclusivamente macho. Mas também só. Feriados de escola
eram passados nas famílias de amigos da escola, com visitas
ocasionais dos pais, em suas "licenças".
Pelos padrões do tempo não havia nada particularmente
excepcional neste padrão de infância. Mas, todavia, era um
padrão que refletiu e marcou fundo na psique, e teve influência
significante na trajetória do trabalho e pensamento de
Bion.
Toda sua vida, eu penso, Bion compartilhou algo da mentalidade composta
no exílio que nunca está completamente
em casa. O escritor Inglês/Polonês Joseph Conrad seria
uma figura exemplificadora, ou mesmo o próprio Samuel
Beckett, um irlandês que escolheu viver, trabalhar e escrever
em Paris e em francês.
No princípio para Bion exílio não foi uma escolha:
foi imposto. Mas depois, em vida, também houve uma ocasião
que
se tornou uma escolha. Como quando, próximo dos 70 anos, no
ápice de sua profissão, Presidente da Sociedade
Psicanalítica britânica, ele deixou sua prática
em Londres e, totalmente improvável, fixa residência, como
psicanalista, em Los Angeles.
Estar no exílio é achar a si mesmo ou colocar a si mesmo
fora do familiar: à margem de nenhuma ou completamente
fora de qualquer uma das duas próprias culturas: ou a da pessoa
ou a do anfitrião. Em ambas é uma quebra com
expectativa e aceno de ausência: um "não bastante aqui
ou lá".
Isto coloca a si mesmo fora de um "sistema de representação",
com seu falado e suposições não ditas, hábitos
e
molduras mentais podem conduzir ou podem provocar, por desencanto,
uma sensação de isolamento que também
está arraigada em um certo narcisismo. Mas também pode
estimular uma criativa e ansiosa curiosidade: uma recusa
para aceitar um aparentemente conhecido mundo outorgado.
Eu acredito que é este o movimento da mente, importando a um
tipo de disposição mental que está no coração
de
todo o trabalho e prática de Bion, ambos no estudo do grupo
e do indivíduo. Algo a que ele iria se referir, depois, como
a capacidade para alterar o "vértice da pessoa".
Esta sensação de "exílio", porém, causou
mais que as experiências imediatas da infância a que referi.
No término da
infância, Bion foi precipitado para experiências menos
familiares mais distantes do que o destino habitual de um
inglês, classe média, filho mais velho: as experiências
de um soldado no front na Guerra de 1914 - 1918. À erupção
de Guerra, Bion ofereceu-se imediatamente para serviço e sem
perguntas. Muito da Guerra ele passou como um
Chefe de Tanques nos campos de batalha no norte da França. Ele
terminou a Guerra coberto em honras,
condecorado por coragem e promovido ao posto de major.
No fim da vida, Bion descreveu esta experiência em um pedaço
notável de auto-biografia: O Longo Fim de Semana.
Neste documento sem igual, ele deixa claro o quanto a Guerra o cicatrizou
para sempre. Quebrou nele, como em
outros, as ilusões de uma geração perdida e o
fixou em um caminho de auto descoberta social que o levaria a
trabalhar nos próximos 30 anos. No centro desta experiência
estava o começo de um reconhecimento do desperdício
da razão humana: a estreiteza da linha divisória entre
sentimento inteligente ou inteligência sentida e estupidez cega.
Mais que isto, um reconhecimento de como é penetrante a capacidade
para mentir em negócios humanos, encobrir e
evadir, do Alto Comando para baixo.
A sensação de exílio, eu penso que possa ser dito,
revirou os intestinos, na estrutura da relação de Bion para
com
nossa natureza comum.
Isto o levou às experiências de outra Guerra, no meio de
sua vida, a descobrir uma posição e um método nos
quais
esta sensação de exílio interno poderia ser posta
em uso criativo.
Em dezembro 1940 Bion foi designado como psiquiatra para se juntar a
um grupo de colegas que trabalhavam sob a
égide do Comando do Exército, incluindo em seus psiquiatras
e psicanalistas aqueles que tinham sido ou tinham se
tornado membros recentes da Clínica Tavistock. Com esta capacidade
ele foi pioneiro de aproximações radicalmente
novas, em primeiro lugar na seleção de oficiais; segundo
para o tratamento e reabilitação de soldados que sofriam
de
neuroses de guerra, usando métodos de grupo.
Não há tempo hoje para desenhar os passos pelos quais
estas aproximações adquiriram forma em detalhes. O que
eu quero mencionar, porém, são várias suposições
ou intuições que, provavelmente no início, parecem
ter guiado a
evolução do modo de pensar e trabalhar de Bion.
A primeira era a suposição de que o grupo e a relação
dos indivíduos com o grupo eram um objeto distintivo e formal
de estudo em seu próprio direito.
A segunda, a suposição metodológica, que para estudar
este objeto é exigido da pessoa se privar de emitir qualquer
declaração ou tomar posição em relação
à tarefa do grupo e/ou sua estrutura, por exemplo de liderança.
Para por isto
de outro modo, a pessoa é exigida a separar, ou "exilar-se a
si mesmo do sistema de representação do grupo",
enquanto busca permanecer em contato com a ressaca emocional da vida
do grupo, como isto é registrado em si
mesmo.
Este movimento de abstinência no serviço da compreensão
emocional pode ser visto como o equivalente da ênfase
de Freud ao ato de abstinência requerido no trabalho psicanalítico
individual. Mais tarde, Bion caracterizaria isto como
a necessidade do analista suspender "memória e desejo".
Esta era a constelação disposta por estas duas suposições
que proveram o espaço mental, se eu posso obter
emprestado esta frase de Robert Young, na qual as diferentes qualidades
e a dinâmica de funcionamento do grupo
poderiam ser experimentadas, refletido sobre, formuladas e devolvidas
através de interpretação.
Também houve uma terceira suposição da qual Bion
nunca partilhou. Era que a compreensão que derivou do
trabalhar com grupos, e que fez a diferença do comportamento
dos seus membros, era sempre e somente uma
compreensão do indivíduo no grupo e nunca do indivíduo
somente. Seguiu-se daí que o grupo não poderia ser usado
como um veículo para terapia individual.
Eu penso que havia um corolário para isto sobre o qual Bion foi
menos explícito: isto é, que a compreensão que
deriva de trabalhar com indivíduos não pode por si mesma
explicar o comportamento do indivíduo no grupo.
Seguiu-se a isso que para alcançar uma compreensão do
comportamento humano no grupo era necessário aquilo
que Bion se referiu como "visão binocular": a habilidade para
ver o mesmo fenômeno (experiência humana e
comportamento), ora pelo vértice do indivíduo, ora pelo
vértice do grupo.
Esta concepção, arraigada em um paralelismo de método
entre psicanalítico e trabalho de grupo, que Bion descreveu
como a "prática da percepção científica",
paradoxalmente unifica o psíquico e os campos sociais. No sentido
que o
comportamento individual e social são vistos profundamente,
se não exclusivamente, dirigidos pela experiência
emocional e pelas defesas que os indivíduos e grupos mobilizam
para conter ou cuidar do fardo de ansiedade que tal
experiência inconscientemente desperta. É nossa convicção
na explicação e na potencialidade do poder construtivo
desta concepção, em níveis individuais e sociais
que nos trazem aqui a informar o que nós estamos buscando
compartilhar e explorar junto.
Porém, eu saltei agora muito à frente. Qual é a
substância da avaliação de Bion da vida de grupo; qual
é sua
contribuição aos dilemas organizacionais e preocupações
sociais em que nos encontramos; como isto é utilizável?
Experiências em Grupos
Eu deveria dizer imediatamente que não pretendo descrever em
detalhes a avaliação feita por Bion de experiências
em grupos. Esta avaliação foi publicada primeiro em uma
série de artigos que apareceram no diário britânico
recentemente fundado, Relações Humanas, entre
1948 e 1951. Embora Bion tenha utilizado sua experiência em
tempo de guerra, a sua fonte primária de material era a sua
experiência com grupos de pacientes e com grupos
compostos de homens e mulheres de diferentes modos de vida que, no
contexto da reconstrução de guerra, ficou
interessado em estudar as fontes de cooperação e conflito
na vida organizacional e social.
Eu tentarei dizer brevemente como Bion trabalhou e a direção
do seu pensamento. É útil lembrar de que na ocasião
este pensamento estava tomando forma. Bion também estava fazendo
seu treinamento como psicanalista com
Melanie Klein. De fato está claro nas suas cartas publicadas,
e nas avaliações dos contemporâneos de Bion, que a
Sra. Klein era um pouco insensível a este interesse dual. Mas
Bion, para nossa vantagem, nunca foi alguém que
facilmente subordinou-se aos juízos ignorantes de outros, mesmo
que eminentes. Certamente a experiência analítica
dele influenciou e ajudou a moldar seu pensamento sobre grupos, mas
igualmente mais tarde proveu uma fonte de
percepção de aspectos da própria experiência
analítica.
A postura de Bion ao trabalhar com grupos, como eu já aludi,
fundamentalmente era, como nós poderíamos dizer
agora, não-diretiva. Quer dizer, ele não buscou fixar
um programa de trabalho, impor ou sugerir uma estrutura. Ele
assumiu que os membros estavam atentos da tarefa do grupo e que em
algum nível desejavam colaborar
trabalhando naquela tarefa. Ele simplesmente determinou a si mesmo
observar o que acontecia e fazer um
comentário sobre isto se ele sentisse que a observação
poderia ser útil. O instrumento que ele desenvolveu foi, em
primeiro lugar, o que ele mais tarde chamaria de "bom senso" pelo qual
ele quis dizer, eu penso, "o uso de todas
suas sensações em comum".
Porém, também havia algo mais que isto e importa a uma
sexta sensação que era a capacidade para registrar e
assistir à qualidade da experiência emocional que acontecia
nele mesmo: apreensão, enfado, irritação, pressão
para
fazer ou dizer algo, ou não fazer ou não dizer algo,
o sentimento de ser no fim receptor de expectativas poderosas ou
sentimentos dos outros: admiração, desprezo, inveja,
ódio, curiosidade, amor etc. Esta atenção para as
próprias
experiências emocionais incluiu a atenção às
correspondentes ou contrastantes experiências do grupo e as
maneiras nas quais as várias constelações de experiências
circulavam dentro e entre os diferentes membros.
Adotando tal postura, Bion foi rapidamente alertado sobre a resistência,
incompreensão e suspeita que despertava.
Se ele não estava comandando, como o grupo poderia trabalhar?
Ele estava jogando algum tipo de jogo?
Seguramente com todas essas iniciais depois do nome dele e com a posição
dele como psiquiatra ou a reputação
dele como "comprador de grupos" ele deveria fixar o grupo em seu curso?
Membros do grupo esperavam algo que estivesse presente. Bion reconheceu
a expectativa mas recusou a obedecer.
Ele fez, você poderia dizer, o presente esperado, ausente. Para
fazer algo ausente, desconhecido, impensável mas
penetrante, presente. Não por teimosia. Mas porque não
estava suficientemente claro por que esta expectativa
precisava ser satisfeita. Afinal de contas a tarefa do grupo estava
clara. Não parecia ser uma tarefa que precisasse
de um líder, desde que não havia nenhuma decisão
urgente para ser tomada. O desejo de um líder não apareceu
baseado em qualquer realidade evidente. Então em que isto estava
fundamentado?
Era a exploração deste enigma que pode parecer assim tão
fácil que nós poderíamos chamar de "bom senso". no
sentido mais habitual deste termo, desde que seguramente todo grupo
precisa de um líder e quem melhor se não o
"expert" designado, - foi esta exploração que conduziu
ao coração das percepções de Bion.
Pondo muito cruelmente e talvez tornando simples a resposta para este
enigma, ao término da jornada de Bion, se
mostra como algo assim: O grupo, qualquer grupo, organização,
sociedade, precisa e evolui uma estrutura de
tarefas, papéis, procedimentos, regras, status designado (isso
que Bion chamado de "cultura" de grupo) para conter
a ansiedade do desconhecido e as respostas que, inconscientemente,
é mobilizado para defender contra aquele
desconhecido. O desconhecido é ao mesmo tempo o que é
desconhecido e temido em cada de nós e o que é
desconhecido nas realidades com as quais nos engajamos na vida e no
trabalho.
Dentro do grupo, acreditou Bion, a pessoa pode ver operando um número
de poderosos inconscientes e
desaprendizados, quase-instintivo, estratégias de evasão
e negação. Bion viu estas estratégias de evasão
e negação
como constituindo isso que ele determinou uma "mentalidade" de grupo,
oposta às metas conscientes, intenções e
esforços dos indivíduos.
Nenhum grupo, nenhuma organização e nenhum indivíduo,
mesmo que sofisticado, sempre está completamente fora
da esfera da mentalidade do grupo neste sentido. E, paradoxalmente,
Bion acreditou, isto é pelo menos em parte
porque a habilidade do grupo para mobilizar mentalidade de grupo é
uma poderosa fonte desaprendida de
cooperação, (Valência)
Claro que, cooperação tem raízes mais benignas.
Nós precisamos cooperar para alcançar muitos se não
todos
nossos desejos individuais. Da mesma maneira que, e este é um
ponto que Bion nunca negou, nós precisamos de
estruturas pelas quais cooperar e dar direção aos empreendimentos
em que nos empenhamos. Mas este mais
positivo e mais realidade baseada em fontes de cooperação
e estrutura é "o pano de fundo" de algo mais primitivo e
defensivo.
A tarefa da liderança e a habilidade intuitiva do líder
talentoso é equilibrar as exigências de cooperação
e estrutura no
serviço da realidade, com os constrangimentos inevitavelmente
impostos pela mentalidade de grupo no serviço de
defesa.
Eu falei sobre "mentalidade" de grupo em condições muito
gerais. De fato muito do pioneiro trabalho de Bion situa-se
na variedade de estratégias de evasão e negação
que incluíram aquela mentalidade.
Havia três estratégias que Bion identificou como sendo
mutuamente exclusivas entretanto intercambiáveis, e cada
uma delas foi caracterizada por constelações particulares
de emoção e fantasia. Bion chamou de "Suposições
Básicas": porque elas pareciam ser rudimentares, não
aprendidas, instintivas; suposições, porque elas operavam
como mitos com base em um implícito "como se". Elas foram nomeados
respectivamente como Dependência,
Luta/Fuga e Pareamento.
Brevemente um grupo que opera sob suposição básica
de dependência se comporta "como para ser sustentado por
um líder de quem depende para nutrição, material
e espiritual, e proteção". O líder pode ser uma pessoa,
um livro ou
idéias e convicções que operam como uma bíblia.
Um grupo que opera sob a suposição básica de luta/fuga
se comporta como se devesse lutar contra algo ou correr
para longe disto.
Um grupo que opera debaixo da suposição básica
do pareamento está preocupado com a idéia do nascimento
potencial ou aparecimento de alguém ou algo que os salvará
de seu estado presente, de sentimentos de ódio,
destruição e desespero. Seu emocional prevalecente é
de esperança e expectativa: como Bion diz: a estação
próxima será mais agradável; como algum tipo novo
de comunidade - um grupo melhorado, sociedade, nação - será
desenvolvido etc.
Eu não quero aqui repetir o que Bion disse sobre as Suposições
Básicas e suas variáveis. É mais sutil, complexo e
rico que eu fiz isto parecer. Mas imagino que maioria de nós
pode reconhecer na história de nossas próprias
organizações e talvez até mesmo mais de nossas
próprias sociedades algo que ressona com estas descrições
breves.
O ponto mais importante que eu desejo enfatizar é a sinceridade
de Bion reconhecendo que a fonte de tais
constelações está na nossa intolerância
e medo do que é incerto, desconhecido em nós mesmos, nossas
situações,
nosso compromisso com o mundo,: emocionalmente, intelectualmente, espiritualmente.
Eu acredito que esta sinceridade e o reconhecimento de Bion da força,
sutileza e inevitabilidade dos estratagemas
inconscientes de vacância que nós temos disponíveis
como seres humanos, novamente paradoxalmente, é a melhor
oportunidade que temos para criar condições de transformar
nossa experiência no mundo em que vivemos e
trabalhamos.
Como uma tentativa de justificar esta afirmação eu quero
dizer algo da minha própria experiência de buscar trabalhar
dentro desta armação de referência como um consultor
de organizacional. Farei isto descrevendo o curso de uma
recente tarefa.
A Administração da Vulnerabilidade
Eu estou trabalhando com o Executivo Principal de uma agência
pública no REINO UNIDO, conhecido como a
Autoridade do Serviço de Hospitais Especiais. Hospitais especiais
são instituições psiquiátricas que trabalham
com
os homens e mulheres condenadas pelos Tribunais de Ofensas contra a
pessoa: agressão física, assassinato,
violência sexual e abuso.
Eu o vejo uma vez por quinzena no Instituto onde eu trabalho. Ele está
vindo porque, após ser designado como o
Executivo Principal deste Serviço, há três anos
atrás, buscou introduzir um programa radical de mudança
organizacional. O objetivo desta mudança é transformar
uma cultura existente em duas direções: de uma cultura de
prisão e controle para uma de retenção e cuidado
terapêutico; e de uma cultura de dependência da autoridade
central
para uma de responsabilidade dividida. Esta mudança é
difícil e está provocando resistência. Também
é arriscado e
o público (comunidades de Governo/imprensa/local) está
vigilante.
Este público é altamente ambivalente: assustado e temeroso
da periculosidade existente nestas instituições que quer
manter longe da vista, fora da mente: mas também culpado e sensível
para comprovar o tratamento doente e abuso.
Se os pacientes escapam há um clamor imediato: também
se são liberados pacientes notórios. Se um paciente
comete suicídio, mata ou é morto dentro do hospital,
há um clamor para um inquérito público. Produz um
relatório e é
esperado que cabeças rolem.
O Executivo Principal conhece algo do trabalho que meus colegas e eu
fazemos com organizações. Ele pensa que
pode ser de utilidade refletir sobre as próprias experiências
como Chefe Executivo e os dilemas e desafios que está
enfrentando. Nós concordamos com um contrato de consultas individuais
regulares. Depois ele me convidará a
trabalhar com os gerentes de unidade de cada hospital se eles escolherem
fazer isto.
Nas primeiras sessões com meu cliente o trabalho enfocou dois
postos. Um é examinar a estratégia de mudança em
que a Autoridade está embarcando e analisar as resistências,
internas e externas, estrutural e cultural. O outro está
em tentar entender "a organização na mente" do meu cliente:
como eu significo a realidade emocional da
organização que está registrada nele e qual o
relato dele para a organização, consciente e inconscientemente.
Por exemplo, um aspecto desta realidade relaciona-se ao modo como o
tempo é estruturado. É como se duas
balanças de tempo estejam simultaneamente presentes, contendo
tensão dentro da instituição e seus membros. Por
um lado há uma "real" cronometragem, com suas urgências
e demandas: por outro um tipo de tempo ilusório no qual
nada vai ou pode mudar - que reflete de alguns modos a decisão
formal dos Tribunais para punir os pacientes com
sentenças indefinidas, (o tempo do prazer de Sua Majestade).
O trabalho vai bastante bem junto, mas eu estou com uma sensação
de perder o coração do assunto! Há um
sentimento de estar na presença de algo desconhecido, enganoso,
mas próximo.
Pela metade da série de sessões que nós contratamos,
o Executivo Principal escreve e me envia uma Memória
Auxiliar de Identificação de Assuntos Chaves. Eu sou
golpeado por um artigo no qual ele se refere ao
"isolamento/vulnerabilidade" do Executivo Principal, particularmente
em um organização que não tem nenhuma
contrapartida e que é inexperiente em trabalhar com alto perfil
e metas ambiciosas.
Nós já mencionamos este tema em várias ocasiões.
Meu cliente viu isto como um perigo profissional relacionado ao
papel particular dele. Isto é exacerbado pela qualidade das
relações dele com o Presidente do Serviço, de quem
ele é
íntimo, mas impossibilitado usar como um "container" para suas
próprias incertezas. Eu estou atento de ser usado
deste modo, como um tipo de substituto para o Presidente. Agora, lendo
esta Memória Auxiliar, eu tenho um
sentimento que esta explicação não vai longe bastante.
O tipo de pergunta que eu me faço é "por que este sistema
precisa de seu Executivo Principal para ser vulnerável, ou experimentar
vulnerabilidade"?
Por este tempo eu comecei a trabalhar com dois dos Gerentes dos Hospitais
individuais e com o Diretor de
Lactância. Eu começo a notar como cada um deles comunica
sentimentos semelhantes de vez em quando.
Também o número de situações em que sessões
têm que ser canceladas ou adiadas por causa de enfermidade. Se
vulnerabilidade é um perigo profissional que parece não
ser a respeito das pessoas.
Mais importante que isto, eu começo a entrar em contato com meus
próprios sentimentos de vulnerabilidade na
presença de meus clientes. Por exemplo, com um gerente que voluntariamente
escolheu começar as sessões eu
tenho todavia freqüentemente sentido como o receptor de algo parecido
com hostilidade: um tipo de olhar morto me
desafia para dizer qualquer coisa útil e isso tem uma carga
explosiva bastante física. Em resumo, eu me sinto
assustado, instigado e tentado a ser em punitivo. Com outro gerente
eu experimento sendo ser atirado em sua mente
que reassegura, na presença de evidências. a catástrofe
iminente.
Estas experiências de vulnerabilidade na presença de meus
clientes têm uma ressaca institucional, nisso eu me dou
conta de ambos os sentimentos de vulnerabilidade de minha própria
instituição - o que acontecerá se eu fizer uma
bagunça nesta tarefa; e de experiências que sentem a vulnerabilidade
da minha própria relação com minha
instituição. Eu acredito que estes registros em mim mesmo,
podem ser entendidos como correlação da experiência
de meus clientes. Mais exatamente, eu diria que eu me experimento temporariamente
como ambos na instituição
deles: algo como um tipo de identificação de projeção
institucional.
Em alguma fase neste processo eu decido pesquisar "vulnerabilidade"
no Dicionário Webster. É definido lá como "
capaz de ser ferido: sujeito a dano ou crítica; assunto a ser
injuriosamente afetado ou atacado. Eu percebo algo que
eu poderia ter encontrado mais cedo. Estar em um Hospital Especial
, seja como paciente ou provedor, seguramente
é pôr a si mesmo ou ser colocado através de outros
em uma posição que expõe a si mesmo para ser vulnerável,
para experimentar a vulnerabilidade da pessoa.
Além disso, a razão dos pacientes, ou da maioria dos pacientes,
é justamente que o comportamento deles expõe ou
explora o vulnerabilidade de outros. (Eu reconheço que isto
pode ter envolvido os próprios sentimentos de
vulnerabilidade dos pacientes, projetados nas suas vítimas).
Visto desta perspectiva, eu sinto agora, os sentimentos dos gerentes
de serem isolados e vulneráveis, pode ser
entendido como uma inscrição neles de uma experiência
emocional que é parte da vida da organização inteira;
isso
surge e em troca ilumina a natureza da tarefa na qual todos os membros
da organização estão comprometidos.
Como tal eles não estão a favor tanto de um perigo profissional
como a matéria-prima de trabalho: processando e
respondendo adequadamente ao que está acontecendo na interação
entre pessoal e pacientes, pacientes e
pacientes, pessoal e provedores de pessoal, a organização
como um todo e seu contexto.
Eu posso formular então que no pensamento dos Hospitais Especiais
e desses que trabalham neles são
apresentados com a tarefa emocional de "administrar vulnerabilidade";
ou, mais justamente, de administrar as
experiências emocionais de ser vulnerável e de produzir
outras vulnerabilidades à si mesmo. Esta tarefa emerge para
mim como o processo primário da instituição: não
seu objetivo, mas algo sem o qual nenhum de seus objetivos
declarados será alcançado.
O que meus clientes me colocaram é que, enfrentada com tal situação
emocional, a pessoa é puxada em projeção.
Como gerentes destas instituições eles são o recipiente
destas projeções. Como um consultor que trabalha com
eles eu sou o recipiente das suas projeções. Como instituições
mais geralmente, os Hospitais Especiais são os
recipientes das projeções da sociedade: seu medo de e
seu medo para o que é muito vulnerável em si mesmo.
Consequentemente a ambivalência: a oscilação contínua
entre demandas que a vulnerabilidade deslocou para os
Hospitais Especiais limitada e controlada para nos manter seguros;
e a culpabilidade do custo, do risco para o
cuidado humanitário e do tratamento.
Esta formulação surge fora do espaço entre meus
clientes e eu e lança e revela. Fixou um novo programa de
trabalho porque clarificou onde estava a resistência para o programa
de trabalho de mudança. Para este programa de
trabalho implica uma capacidade para fazer a si mesmo vulnerável,
e dirigir aquela nova experiência mais
emocionalmente. O desafio é conter este vulnerabilidade, não
controlar ou projetar. Mas para conter isto, tem que não
ser reconhecido como um perigo mas como uma ocasião: a ocasião
para real trabalho: a prova de estar em contato
e os meios de manter contato.
É o que aconteceu entre meus clientes e eu? Eu me referi anteriormente,
durante o trabalho com o Executivo
Principal, que tive a sensação de estar na presença
de algo "desconhecido", enganoso mas próximo. Mas eu vejo
isto agora diferente: que meus clientes e, na medida em que eu estava
em contato emocional com meus clientes, eu,
estava na presença de algo conhecido mas não formulado:
algo "impensável"; o modo de ser da organização.
Conhecer o impensado. A frase não é minha. É tirada
do trabalho do psicanalista britânico Christopher Bollas para o
qual eu fui apresentado por um colega íntimo durante o curso
da tarefa que eu descrevi. Eu não estou qualificado
para expor as idéia de Bollas que se originam do encontro psicanalítico
entre o analista e o analisando. Mas como
todas as conjunções criativas (compare isto, por exemplo,
com Wilfred Bion "pensamentos à procura de um
pensador") monta ressonâncias em outros espaços, outros
contextos.
Eu penso que o que eu estou tentando compartilhar pode ser visto como
um trazer à tona algo conhecido na
organização, conhecido no emocional e físico e
talvez vida imaginária da organização que resiste
à formulação: algo
primário e usual que é vivido mas só como uma
sombra. E uma vez formulado, uma vez trazido para o pensamento,
paradoxalmente, cria uma diferença para a qual faz uma diferença
como toda decisão, política, ação é
compreendida.
Não torna as coisas mais fáceis; não mostra a
um cliente o que fazer. Mas descobre significados: apresenta o
cliente, como isto é, para organização nele e
ele na organização. E esta revelação cria um
novo programa de
trabalho.
Conclusão
Descrevendo este caso a você eu fiz uma pequena referência
a Bion ou, mais especificamente, para os conceitos
imediatos e preocupações de relações de
grupo. Ainda penso como trabalhei, o com o que trabalhei e o que emergiu
para meus clientes e para mim deste trabalho, não poderia ter
acontecido sem os fundamentos que estes tinham
colocado, a geografia eles tinham aberto e tinham desenhado em meu
próprio "espaço" mental.
O que causa, agora ao término do dia, um bem, uma sensação
positiva, aqui em seu país como em minha casa: um
programa de trabalho que, mesmo difícil nos enviará,
pelo menos, ao que é real. Eu acredito que é nada mais, nada
menos que a abertura da percepção para a troca de um
com o outro, de mim e você, de eu e tu.