Mexican Institute of Group and Organizational Relations
 

A caça aos pequenos grupos elementares

Pitirim Sorokin

Novas Teorias Sociológicas

Seguindo o preceito dos biólogos do século XIX, segundo os quais o estudo da estrutura e evolução do organismo
deveria começar pelas suas formas menores e mais simples, vários sociólogos e psicólogos "descobriram" nestes
anos mais recentes o "pequeno grupo" como unidade social elementar. Deram, assim, inicio a uma intensa
investigação de "pequenos grupos" como a forma de abordagem mais promissora para o descobrimento de
generalizações aplicáveis aos grandes grupos e ao universo inteiro dos fenômenos sociais. O impulso inicial a esse
estudo dos pequenos grupos foi dado pela teoria dos átomos sociais de Moreno e pela sua "sociometria", bem assim
como pelos esquemas pseudomatemáticos da "dinâmica de grupo" de K. Lewin. Sob a influência desses autores,
vários investigadores mais jovens - como os adeptos da "Dinâmica de Grupo",R.Bales, A. Bavelas, G. G. Homans, E.
F. Borgata e outros - empenharam-se entusiasticamente em estudos de pequenos grupos e puseram em moda tais
estudos. Os partidários desse movimento vêm cantando loas, num "crescendo", ao caráter revolucionário de suas
descobertas e à natureza excepcionalmente científica dos seus estudos. Pretendem ter descoberto, pela primeira
vez na história, o pequeno grupo cientificamente - isto é, experimental, objetiva e quantitativamente. Sustentam, da
mesma forma, que antes da sua investigação cientifica o que as ciências psicossociais produziram foi, sobretudo,
uma filosofia especulativa de gabinete.

Ao examinarmos cuidadosamente essas pretensões, vemos que são em grande parte infundadas. Quando os
métodos de pesquisa desses cientistas são considerados a sério, verifica-se que consistem principalmente em
processos pseudo-experimentais e pseudoquantitativos; quando suas descobertas são analisadas, mostram ser ou
redescobrimentos de velhas leis, ou ninharias insignificantes, ou simplesmente erros.

Para inicio de conversa, os investigadores de pequenos grupos não têm sequer a apresentar uma definição
satisfatória do que seja pequeno grupo. Suas definições acentuam duas diferenças específicas dos pequenos
grupos: (1) a interação face a face, "em que cada membro recebe uma impressão de outro membro, bastante nítida
para que ele possa mostrar uma reação a cada um dos outros como pessoa individual, ainda que seja apenas para
tomar conhecimento da presença do outro"; (2) um pequeno número de membros flutuando de um a cerca de vinte e
cinco. De acordo com esta definição, um encontro face a face de vinte pessoas mais ou menos, até então
desconhecidas umas das outras, e em que cada membro recebe uma "impressão clara" de muitos outros membros
da reunião - quer se trate de um "cocktail party" casual, quer de uma reunião política espontânea ou de um "revival"
religioso - não constitui um pequeno grupo. Por outro lado, uma série de sessões de um parlamento com cerca de
600 membros, em que cada um deles conhece todos os outros, ou umas convenção do Partido Republicano, onde
mais de mil delegados, que provavelmente se conhecem todos, interagem face a face, tem pelo menos uma das
duas características de um pequeno grupo. Além disso, somos informados de que uma pessoa, quando fala consigo
mesma, constitui um "pequeno grupo". Assim, de acordo com as características básicas da definição de um
pequeno grupo, muitos grupos grandes são pequenos grupos, enquanto muitos grupos pequenos não são pequenos
grupos em absoluto. Como surpresa adiciona, vimos a saber que um pequeno grupo pode ser tão pequeno que
consista numa só pessoa. Usar os termos "pequeno" e "grande" em sentidos quase opostos aos que geralmente têm
não contribui para aclarar a definição. Na verdade, cria uma confusão sem remédio em torno do problema e torna o
conceito de pequeno grupo excessivamente vago e até contraditório.

Além disso, a definição do pequeno grupo não descreve nenhuma classe homogênea de grupos sociais;
apresenta-nos, ao invés, uma verdadeira miscelânea de grupos os mais dessemelhantes, pois que qualquer das
duas características pode ser encontrada entre os mais heterogêneos grupos ou reuniões de pessoas. Assim, a
interação face a face ocorre no encontro de dois amantes, do algoz e do condenado, numa reunião de família, nas
reuniões dos diretores de uma companhia, nas interações de uma multidão remoinhante e vociferante; numa
discussão de grupo, num pelotão no campo de batalha, numa sessão de parlamento, numa convenção política etc. A
simples razão face a face não torna semelhantes a esses e centenas de outros grupos, nem os inclui na mesma
espécie de grupo. Um pequeno número de membros é encontrado entre grupos os mais dessemelhantes: na família,
na direção de uma companhia, num grupo de conspiradores revolucionários, numa quadrilha de criminosos, em
várias espécies de clubes "fechados" e em centenas de outros grupos tão diferentes uns dos outros quanto é
possível ser.

Unificar os grupos mais heterogêneos numa única classe, a dos pequenos grupos", é contrário à regra científica
fundamental de classificação dos fenômenos. É tão anticientifico como a unificação, numa espécie "nariguda", de
organismos tão diferentes como insetos, peixes, cães, pássaros e homens, ou numa espécie "rabuda", de cobras,
formigas, cavalos e aves. Sabemos muito bem que uma tal espécie é tudo menos uma espécie. Pela mesma razão,
a classe dos pequenos grupos não é em absoluto uma classe. A própria tentativa de formar uma classe especifica
com os pequenos grupos carece de qualquer base lógica, semântica e empírica. É mais ou menos tão anticientifica
como seria a tentativa de um botânico, de formar uma espécie particular de pequenas plantas com todas as que
medissem de 1 a 25 polegadas de altura, ou de um zoólogo, de formar uma nova espécie de pequenos organismos
com todos aqueles que pesassem de 1 a 25 libras. Em Biologia não existem tais classes taxonômicas; se alguém
sugerisse, não teriam a menor possibilidade de ser aceitas. Em sociologia, infelizmente, continuam sendo propostas
e têm notável aceitação nos dias que correm.

O "pecado original" dos adeptos dos pequenos grupos é não possuírem nenhuma verdadeira classe de grupos
sociais para seu estudo e de não saberem exatamente o que sejam os pequenos grupos que estão tentando
investigar. Esse "pecado" é responsável pelos muitos defeitos e erros de suas diligentes pesquisas - por exemplo, a
falsa suposição de que o pequeno grupo é a unidade mais simples dos grupos ou estruturas sociais. Pela interação
face a face e pelo número de seus membros, a família é um pequeno grupo; sem embargo, pela sua estrutura e
pelas suas funções, é um dos grupos mais complexos e mais enciclopédicos de todas as organizações sociais. Pelo
número de seus membros, muitas associações nacionais e internacionais como os partidos Democrático e
Republicano, a Federação Americana do Trabalho ou a Associação Nacional de Manufatores, são vastos grupos com
milhões de membros. Estrutural e funcionalmente, são grupos muito mais simples do que a família. Estruturalmente,
os membros dessas vastas associações são ligados apenas por um único ou uns poucos vínculos ou interesses -
econômicos, ocupacionais, recreativos, religiosos ou científicos - ao passo que os membros da família são ligados
por muitos vínculos ou interesses. Funcionalmente, as atividades dessas vastas organizações também são muito
menos enciclopédicas, mais estreitas e especializadas do que as atividades "enciclopédicas" da família. Em muitas
comunidades reais (Gemeinschaften) são de pequeno tamanho em comparação com muitas associações
(Gesellschaften), e no entanto estrutural e funcionalmente, tais comunidades são muito mais complexas do que
numerosas grandes associações. O tamanho reduzido de um grupo não faz dele necessariamente um grupo
simples, e vice-versa. Os adeptos dos pequenos grupos erram grosseiramente ao igualar pequenos grupos com
grupos simples. Se quisermos seguir o preceito "do mais simples ao mais complexo", um estudo dos grupos sociais
não tem necessariamente de começar pelos grupos menores e passar depois aos maiores. Esse preceito em si
mesmo, porém, não é um principio metodológico universal: em muitos casos é mais aconselhável seguir o preceito
aristotélico contrário, segundo o qual as propriedades de um carvalho podem ser estudadas com mais proveito num
carvalho adulto do que numa bolota.

O estudo de pequenos grupos e da espécie de grupos selecionados para estudo pelos pesquisadores de pequenos
grupos tem sido feito ao acaso e às cegas. O grosso dos grupos investigados representa uma coleção incidental,
semi-organizada ou inorganizada, de estudantes, soldados, trabalhadores ou moradores de um prédio (quarto,
apartamento, sala de aulas, seção de fábrica etc.), até então desconhecidos uns dos outros e reunidos
atabalhoadamente, muitas vezes pôr ordem de seus superiores ou mediante uma promessa de remuneração, a fim
de "discutir", "resolver problemas", "ser entrevistados e interrogados" e outros propósitos artificiais da mesma
espécie. Essas reuniões incidentais podem ser descritas com mais exatidão como "grupos de bate-papo". De
quando em quando um grupo organizado e inteiramente heterogêneo, como a família em Tikopeia, um clube
metropolitano, uma pequena seita religiosa ou uma panelinha política, é estudado pelos investigadores de pequenos
grupos, que se esquecem de sublinhar as profundas diferenças entre grupos organizados, inorganizados e nominais:
todos recebem o mesmo tratamento. Não admira que o estudo dessa "mélange" de grupos tenha dado escassos
resultados.

A critica acima não significa que as formas especificas de pequenos grupos não possam ou não devam ser
estudadas. Pelo contrário, pequenos grupos como as díades e tríades, a família, uma pequena aristocracia, um
pequeno grupo de negócios, uma pequena seita ou partido político, etc., têm sido estudados com proveito. Entretanto,
cada uma dessas coletividades é estudada não apenas como um pequeno grupo em geral, mas como um grupo
especifico cujas propriedades estruturais, dinâmicas e funcionais não podem se estendidas a todos ou a muitos
grupos com reduzido número de membros. As propriedades básicas da família e as relações de marido-mulher-filho
não podem ser extrapoladas muito além da tríade familiar, nem aplicadas a todas as díades, tríade e pequenas
coletividades comerciais-religiosas-criminosas-educacionais-militares-politicas. Tampouco podem ser aplicadas aos
grupos inorganizados e nominais, e vice-versa. Se as propriedades de um desses grupo específicos forem
extrapoladas para outros grupos, como costumam fazer os nossos descobridores de pequenos grupos, os
resultados não poderão deixar de ser ilusórios, falhos de qualquer sentido ou cognitivamente insignificantes.

Rejeitamos a asserção dos recentes investigadores de pequenos grupos, segundo os quais, antes das suas
pesquisas, tais grupos mal eram estudados, e são eles os seus descobridores. Essa pretensiosa asserção não tem
base nenhuma. Desde Confúcio, pelo menos, uma série de pequenos grupos específicos, a começar pela família,
têm sido cuidadosamente estudados por muitos pensadores, que os investigaram como grupos específicos e
sabiamente se abstiveram de extrapolar os resultados da pesquisa para além do grupo estudado. A esse respeito,
seu procedimento foi muito mais cientifico que o dos recentes investigadores da classe fictícia dos pequenos grupos
em geral. A família e os familiares, as díades de mestre-aluno, amo-escravo, vendedor-comprador e
empregador-empregado; as tríade de juiz-acusador-réu, marido-mulher-amante; as pequenas Bruderschaften, a
pequena guilda, casta, aldeia e muitas outras pequenas coletividades já foram bem analisadas pelos autores do
Código Hamurabi, por Confúcio, Mo-ti, Mêncio, pelos autores dos Puranas, Tantras, Arthasastras e Nitisastras
hindus; foram estudadas nas Leis de Manu, nas Institutas de Vishnu e por autores como Kautilya, Platão, Aristóteles,
e especialmente pelos grandes juristas romanos cuja obra foi incorporada no Corpus Juris Civilis. Por si só, este
Corpus oferece definições tão adequadas, minuciosas e bem analisadas dos principais grupos, corporações e
instituições específicos tanto pequenos como grandes, que ainda vive não apenas nos códigos jurídicos como na
própria vida social do Ocidente. Comparadas com essas definições, fórmulas e análises, as feitas pelos recentes
investigadores de pequenos grupos não passam de frívola parolagem. Quanto mais depressa esses investigadores
abandonarem as suas infantis pretensões de serem os descobridores dos pequenos grupos, e quanto mais
depressa fizerem conhecimento com o Corpus Juris Civilis e outros antigos estudos dos principais tipos de
pequenos grupos organizados, melhor será para eles e para a Sociologia.

Quanto mais detidamente examinamos os decantados métodos experimentais, operacionais, quantitativos e
objetivos das recentes investigações de pequenos grupos, mais se evidencia o já tão conhecido verniz imitativo
desses métodos, aplicado principal ao velho "testemunho de oitiva" dos participantes de grupos recrutados às
pressas para "discussão", "solução de problemas" ou, mais exatamente, "bate-papo". Ao primeiro relance, a
montagem e os procedimentos desses investigadores nos parecem na verdade proficientes e objetivos. Seus
pequenos grupos congregam-se num laboratório especial, equipado com um "espelho unidirecional", com gravadores
de som e registradores de interação. Esses frangalhetes supostamente permitem ao investigador observar, gravar e
encaixar em uma de suas categorias cada "unidade de discurso" de cada membro. A classificação de R. F. Bales
pode servir como exemplo típico de tais categorias. Bales divide nas seguintes classes todas as reações verbais e
ações exteriores possíveis dos membros: "(1) mostra solidariedade; (2) mostra relaxamento de tensão; (3) concorda;
(4) dá sugestão; (5) opina; (6) dá orientação; (7) pede orientação; (8) pede opinião; (9) pede sugestão; (10) discorda;
(11) revela tensão; (12) mostra antagonismo."

No fim da sessão, o investigador-observador tem em mãos o registro de todas as unidades de expressão verbal e de
ação de cada membro, a quem se dirige cada expressão verbal ou ação, em que ordem se sucedem e a categoria a
que pertence cada uma. Esses dados são então submetidos a uma manipulação estatística a fim de nos fornecerem
conhecimentos científicos, até então ignorados, sobre os processos de interação e a estrutura e a dinâmica de toda
sorte de pequenos grupos. Os resultados obtidos costumam ser generalizados e aplicados a muitos outros grupos,
pequenos e grandes. Os pequenos grupos de Bales flutuam em tamanho de dois a dez e de três a seis participantes.
Seus membros são graduandos de Harvard, recrutados por meio do departamento de empregos dessa Universidade.
Os estudantes não se conhecem uns aos outros antes do primeiro encontro. Cada grupo teve quatro reuniões para
discutir um "caso relações humanas".

A despeito de todo esse verniz cientifico, o processo inteiro é, na realidade, altamente subjetivo, arbitrário e baseado
em pressuposições excessivamente vagas e idéias duvidosas. Em primeiro lugar; conceitos centrais do estudo - a
"unidade de expressão verbal" e a "unidade de ação" - ficam praticamente sem definição. Devemos considerar cada
palavra separada como uma "unidade de expressão verbal"? ou cada proposição formada de
sujeito-cópula-predicado? ou uma série de proposições que versam sobre o mesmo assunto? ou que mostram o
mesmo colorido emocional? ou que se dirigem ao mesmo membro? ou que? Um esboço muito vago e nebuloso
dessas unidades não facilita em nada a sua definição. Daí resuIta que só a decisão perfeitamente arbitrária do
observador determina que palavras ou atos compõem uma "unidade de expressão verbal" ou uma "unidade de ação".
Como esses conceitos centrais ficam sem definição, toda a gigantesca estrutura analítica e estatística construÍda
sobre eles não passa, em suma, de uma miragem.

Não menos arbitrária é a operação de classificar cada "unidade de expressão verbaI" e cada "unidade de ação" de
cada participante na continua e veloz corrente de palavras e de movimentos muitas vezes simultâneos. À diferença
dos calculadores eletrônicos, o "registrador de interação" não classifica automaticamente as unidades de expressão
verbal e de ação numa das doze categorias. A classificação é feita - também a toda a pressa - pelo próprio
observador. Este, naturalmente, não tem tempo para analisar, cuidadosamente se as palavras pertencem a categoria
"dá sugestão", "dá opinião" ou "dá orientação"; ou se incluem na categoria "discorda", "revela tensão" ou "mostra
antagonismo". Mesmo que dispusesse de bastante tempo, ainda assim lhe seria difícil e muitas vezes impossível
fazer uma classificação acurada, pois é tão grande a semelhança entre as categorias "dá sugestão", "dá opinião" e
"dá orientação" que só mesmo uma intuição sobrenatural poderia distinguir entre elas e classificar cada uma sem
perigo de erro. O mesmo se pode dizer das categorias "discorda", "revela tensão" e "mostra antagonismo".
Considerando-se que o observador, durante toda a sessão do seu grupo de "bate-papo", tem de registrar cada
"unidade de expressão verbal" (indefinida), cada "unidade de ação" (também indefinida) por quem eIa é enunciada ou
praticada, a quem se dirige e a qual das suas mal-definidas categorias pertence; considerando que vários membros
do grupo podem estar falando e agindo simultaneamente; e considerando a pressa com que ele deve proceder a
todos esses registros, análises e classificações, concluímos que não há observador capaz de desempenhar com
exatidão e objetividade essas tarefas impossíveis. É inevitável que ele as realize impulsivamente, arbitrariamente e às
tontas. Portanto, se dois aspectos básicos do estudo - a definição das unidades de expressão verbal e de ação e o
método usado para classificá-Ias - são predominantemente subjetivos e arbitrários, a maioria dos outros dados da
pesquisa, a maior parte de sua superestrutura estatística e o grosso das conclusões também serão subjetivos,
arbitrários, pseudo-experimentais e pseudoquantitativos. Não há trangalhetes nem espelhos unidirecionais, não há
longas séries de cifras e de índices que possam disfarçar a natureza essencialmente anticientifica de toda essa
operação de pesquisa.

Vários outros defeitos importantes vêm viciar ainda mais essas operações. A classificação das doze categorias é
feita a esmo. Não tem nenhum fundamentum divisionis. Várias dessas categorias, como "dá sugestão", "dá opinião"
etc., são tão semelhantes e em parte coincidentes que o mais cuidadoso dos investigadores, com tempo de sobra,
não poderia decidir a qual delas pertence esta ou aquela "unidade de expressão verbal". Por outro lado, a
classificação numa só categoria, palavras e ações notavelmente dissímiles entre si. Por exemplo, a categoria "dá
orientação" abrange "informação, repetição, esclarecimento e confirmação". Evidentemente, "repetição não é
sinônimo de "informação", e "esclarecimento" significa algo diferente de "confirmação". Uma classificação tão
mal-amanhada do ponto de vista lógico como do fatual é um instrumento dos mais insatisfatórios para um estudo de
unidades verbais e comportamentais e torna inevitável o caráter altamente arbitrário e subjetivo da operação de
pesquisa.

Acresce que as categorias da classificação se propõem a descrever tecnicamente as reações verbais dos
participantes; não são apropriadas para lhes descrever as ações não verbais. Omitindo quase inteiramente a conduta
exterior dos participantes e os motivos de suas ações, os estudos dos nossos investigadores não fazem mais do
que deslizar sobre a superfície verbal, sem tocar na conduta exterior dos membros de seu grupo incidental de
"bate-papo". Neste sentido, a pesquisa é superficial e esquiva quase totalmente os problemas reais da interação
social e dos fenômenos de grupo.

As pretensiosas "descobertas" desses investigadores são, na realidade, ou trivialidades ponderosamente formuladas,
ou tautologias disfarçadas por tábuas estatísticas, revelações há muito descobertas transcrições deturpadas das
ciências físicas, ou simplesmente erros. Aqui vão alguns exemplos típicos dessas "descobertas". Se necessário,
poderiam ser multiplicados à vontade.

"A interação é um processo que consiste em ação seguida de reação." Que magnífica tautologia! "[Para a liderança]
deve existir um grupo com uma tarefa comum... e pelo menos um membro deve ter responsabilidades que difiram
das dos outros membros" (R. M. Stodgill). Que verdade profunda! Eis ai uma descoberta quase tão nova como
aquela de que "após a primavera vem o verão e, após o verão, o outono". No entanto, como não raro sucede com
esse gênero de trivialidades, o autor da asserção esquece por vezes que o grupo e sua tarefa comum são criados
por um líder.

"Alguns membros [de um grupo] podem ser considerados como superiores a outros na liderança [porque têm a
responsabilidade de tomar decisões] (Stodgill)." Extraordinária, esta nova descoberta, não conta nem um dia mais do
que 5.000 anos de idade.

"Um aspecto significativo da nossa sociedade é que as pessoas desejam participar de grupos" (L. Festinger). Q,ue
revelação esta, especialmente depois das proposições de Aristóteles: "O homem é naturalmente um animal político"
e "Em todas as pessoas existe um impulso natural para se associarem umas com as outras."

Não menos impressionante é a descoberta de "por que as pessoas buscam a participação em grupos", de Festinger.
A resposta é porque "os grupos freqüentemente [facilitam] a consecução de importantes metas individuais". As
atividades dos grupos são amiúde atraentes para os membros. E são atraentes "por que as pessoas têm
necessidades que só podem ser satisfeitas em grupos". O autor esquece de mencionar várias limitações
importantes a estas verdades, como o fato de milhões de pessoas se tornarem membros de um grupo
automaticamente, sem que os seus desejos sejam levados em conta. Por exemplo, a cidadania num Estado ou a
participação numa casta é automaticamente imposta a todos os que nascem em tal ou tal Estado, ou de
pertencentes a tal ou tal casta; por vezes muitos indivíduos, tais como prisioneiros de guerra ou criminosos, são
coagidos a integrar um grupo de internados num campo de concentração ou presídio, contrariamente aos seus
desejos. Essas participações automáticas e indesejáveis em grupos desempenham um papel não menos importante
na vida de milhões de pessoas, do que as participações voluntárias e procuradas.

A mesma conclusão é válida para os "descobrimentos" de Festinger sobre a relação entre a amizade (ou inimizade)
e a proximidade territorial e "funcional", sobre as condições de uma ação comunitária eficaz e a quase todas as suas
conclusões supostamente derivadas de estudos "experimentais" dos grupos de Regent Hill e de Westgate - seus
estudos de "dissonância cognitiva." Cada uma de sua conclusões foi incomparavelmente melhor formulada,
desenvolvida e demonstrada por muitos investigadores sociais das gerações anteriores.

Consideremos agora alguns descobrimentos relativos à "coesividade" dos grupos. Segundo John Thibaut, o termo
coesividade significa "o campo total de forças que agem sobre os membros no sentido de fazê-los permanecer no
grupo." Tanto o termo como a sua definição representam uma versão desvirtuada de uma proposição da Mecânica,
tomada de empréstimo às ciências físicas. É uma asserção extremamente vaga e inadequada. Sem uma
diferenciação preliminar da espécie de grupos cuja "coesividade" esta em causa, não é possível alcançar uma
compreensão real das formas e das forças de "coesividade". O caso é que existem grupos "voluntários" e
"coercivos", ou, mais precisamente, "familísticos" "contratuais" e "compulsórios". A diferença básica entre esses
grupos manifesta-se por uma diferença fundamental das forças de coesividade que agem em cada um deles. Os
fatores que congregam os membros de uma família numa unidade e que permitem a esta manter a sua identidade,
"coesividade" e continuidade são bem diversos dos fatores que obrigam os internados de uma prisão a permanecer
no grupo. As forças que mantém juntos os empregados e o empregador de uma firma comercial ou industrial
também são diversas daquelas que conservam unida uma família, um grupo de penitenciária ou os membros da
Associação Norte-Americana de Sociologia.

Esta diferenciação dos tipos de grupos que se conservam unidos e dos tipos de vínculos que os mantém nessa
condição não é feita com clareza no estudo de Thibaut nem em outros do mesmo gênero. Resulta dai que todos os
diligentes esforços desses sociólogos estudarem cientificamente o problema da coesividade dos pequenos grupos
ainda não produziram nem uma só descoberta nova e significativa. Em comparação com o cabedaI de
conhecimentos existentes nesse campo, as suas teorias, as uniformidades por eIes "descobertas e a sua visão
integraI do problema, com todas as respectivas ramificações, ainda continuam na fase primitiva - uma fase há muito
ultrapassada pelas ciências psicossociais de hoje.

Aqui está a descoberta seguinte: "A atração do grupo é função das forças resultantes que agem sobre o membro."
Que "forças resultantes"? E como agem elas sobre os membros? Em Mecânica, todos esses termos são
rigorosamente definidos e mensuráveis. Aqui, permanecem simples palavras vagas, sem qualquer significado ou
mensuração definida.

Continuemos a descobrir as "descobertas" dos nossos "pioneiros. Eis aqui novos exemplos de suas tautologia: "O
termo coesão [de grupo] refere-se a fenômenos que assumem existência quando (e somente quando) existe o
grupo." [Extraordinário, isto!] "Os membros do grupo que são... amigos... tendem a mostrar mais interesses uns
pelos outros como pessoas, talvez a se prestarem mais apoio mútuo, a serem mais cordiais nas relações
interpessoais." [Outra grande revelação! Reparem, especialmente, na extrema cautela "científica" deste notável
"talvez".] Antes desta revelação julgávamos ingenuamente que, sem nenhum "talvez", "amizade" implicasse interesse
mútuo, cordialidade e apoio aos amigos. Depois de tais revelações, inclino-me a repetir as palavras de Saintsbury: "Ó
chavões! Ó rótulos! Ó parvoíces!"

"Um aumento na frequência da interação entre pessoas pode intensificar-Ihes o sentimento favorável umas para com
as outras." Se assim é, quanto mais frequentemente lutarem (interagirem) vietnamenses e americanos, mais
favorável será o sentimento que desenvolverão uns em relação aos outros. Por conseguinte, a interação de luta e de
ódio é um fator tão eficaz para o desenvolvimento da mútua admiração, simpatia e altruísmo quanto a ajuda recíproca
Felizmente para Homans, no fim do parágrafo que enuncia e desenvolve esta generalização "cientifica", ele parece
ter percebido o seu erro unilateral, pois acrescenta, em quatro palavras apenas, duas outras conseqüências
possíveis da interação freqüente - a saber, o desenvolvimento de "respect or, worse, antagonism" (respeito ou, o que
é pior, antagonismo).

"A formação de grupos de cisão desintegrará a organização mais vasta quando as metas do grupo menor são
incompatíveis com as do maior." Outra bela tautologia! Os grupos de cisão tendem a cindir ou desintegrar! Mas,
como sucede a muitas tautologia, a asserção tautológica sob esta forma é inadequada, pois, em vez de desintegrar o
grupo maior, o grupo menor é mais comumente suprimido por ele. Não menos empiricamente unilateral é a
afirmação de que "a tendência para se fragmentar seria tanto mais provável quanto maior fosse o grupo". Se esta
generalização fosse verdadeira, nenhum grande império, organização religiosa mundial ou grande sindicato de
trabalhadores poderia surgir e existir por muito tempo. Na realidade, porém, durante a história da humanidade sempre
houve vastos grupos, que, por via de regra, tiveram existência mais longa do que os grupos pequenos.

R. F. Bales e seus associados iniciam o seu ensaio com a seguinte afirmação: "As frequências de comunicação
entre os membros de pequenos grupos de contato pessoal mostram certas regularidades notáveis que não tinham
sido descritas até agora... A detecção dessas regularidades representa uma significativa conquista para os nossos
conhecimentos sobre a distribuição da comunicação em pequenos grupos e fornece uma estrutura básica de ordem,
dentro da qual podem ser feitas muitas outras análises detalhadas dos processos de interação." Quanta modéstia!
Mas que são exatamente essas notáveis e significativas regularidades"? "Os fatos averiguados indicam que, se os
participantes de um pequeno grupo forem classificados de acordo com o número total de atos que iniciam, tenderão
a classificar-se na mesma ordem: (1) pelo número de atos que recebem; (2) pelo número de atos que endereçam a
outros indivíduos específicos; e (3) pelo número de atos que dirigem ao grupo como um todo".

Em palavras singelas, essas poderosas "uniformidades" significam que, num grupo de discussão, os membros mais
palradores falam com mais freqüência do que os outros membros e são respondidos com mais freqüência pelos
membros menos palradores. Desta bela tautologia podemos deduzir uma nova "notável e significativa uniformidade",
omitida por Bales: As pessoas caladas falam com menos freqüência do que os outros membros e são respondidas
com menos freqüência pelas pessoas mais loquazes.

Como muitas outras tautologia, a de Bales não pode de forma nenhuma ser considerada como uma regra geral
empírica para todos os grupos, pequenos e grandes. No grupo do tribunal, formado pelo réu, pelos advogados de
acusação e defesa e pelos jjurados, a maioria das manifestações verbais, contrariando a uniformidade de Bales, se
dirigem aos jurados e ao juiz. Os jurados, por via de regra, permanecem silenciosos ao invés de serem os que mais
falam; o próprio juiz geralmente fala menos do que os advogados. Um conferencista, um pregador e um comandante
de pelotão a dar ordens são os únicos membros falantes dos respectivos grupos. Em geral, porém, não costuma
estabelecer-se diálogo entre eles e os demais membros dos respectivos grupos. Num grande número de diferentes
grupos, todos os membros falantes dirigem-se ao presidente, e contudo, este é muitas vezes o que menos fala no
grupo. E assim por diante.

Na imensa maioria dos grupos pequenos e grandes as "uniformidades" de Bales constituem antes as exceções do
que a regra, do ponto de vista de quem realmente fala, a quem é dirigida a palavra, e com que freqüência. E, o que é
ainda mais importante, não há necessidade de uma diligente pesquisa do tipo Bales para averiguar a ordem, a
freqüência e as espécies de manifestações verbais dos vários membros de quase todos os grupos organizados:
tudo isso pode ser deduzido facilmente da constituição de tais grupos. As leis, e regulamentos de cada grupo
organizado fornecem informações muitíssimo acuradas sobre todos esses pontos do que as vagas e em grande
parte fictícias uniformidades que os investigadores de pequenos grupos obtêm com um enorme desperdício de
tempo, energia e fundos.

Se repassássemos página por página todos os estudos publicados pêlos recentes investigadores de pequenos
grupos, encontraríamos, em quase todas as páginas, "descobertas", conceitos, definições e teorias representados
pelos exemplos que demos acima. No entanto, leitura atenta dessas obras não me revelou uma só descoberta nova
de importância mesmo terceira. Encontrei, sim, uma superabundância de pseudodescobertas. Os nossos
investigadores, a passear num parque de fatos bem-cultivados parecem imaginar-se os pioneiros-exploradores de
uma terra ate então desconhecida, ou os primeiros escaladores de montanhas e picos científicos que, na realidade
foram conquistados há muito tempo.